Questão FC831915
— Compra, sim?
Interpretação de Textos (Compreensão)
Pró Reitoria GP CP2 · 2019
Texto II
A PROFESSORA E A MALETA
A Professora era gorducha; a maleta também. A Professora era jovem; a maleta era velha, meio estragada [...].
A Professora gostava de ver a classe contente, mal entrava na aula e já ia contando uma coisa engraçada. Depois abria a maleta e escolhia o pacote do dia. Tinha pacote pequenininho, médio, grande, tinha pacote embrulhado em papel de seda, metido em saquinho de plástico, tinha pacote de tudo quanto é cor; não era à toa que a maleta ficava gorda daquele jeito.
Só pela cor do pacote as crianças já sabiam o que é que ia acontecer: pacote azul era dia de inventar brincadeira de juntar menino e menina; não ficava mais valendo aquela história mofada de menino só brinca disso, menina só brinca daquilo, meninos do lado de cá, meninas do lado de lá. Pacote cor-de-rosa era dia de aprender a cozinhar. A Professora remexia no pacote, entrava e saía da classe e, de repente, pronto! montava um fogão com bujãozinho de gás e tudo. Era um tal de experimentar receita que só vendo.
[...] E tinha um pacote branco que só servia pra Professora esconder e pra turma brincar de achar. Quem achava ia pro quadro-negro dar aula. [...]
No dia que Alexandre achou o pacote, resolveu contar pra turma como é que ele vendia amendoim na praia. No melhor da aula, um grupo de pais de alunos, que estava visitando a escola, entrou na sala. Quando a aula acabou, um deles perguntou pra Professora:
— A senhora está querendo ensinar meu filho a ganhar a vida vendendo amendoim?
A Professora explicou que Alexandre só estava contando pros colegas como era o trabalho dele, pra todos ficarem sabendo como é que ele vivia.
No outro dia saiu fofoca: contaram pro Alexandre que tinha um pessoal que não estava gostando da maleta da Professora.
— Que pessoal?
Um disse que era a diretora, outro disse que era uma outra professora, outro disse que era o pai de um aluno, outro falou que era o faxineiro, e foi um tal de um disse que o outro falou, que ninguém ficou sabendo direito.
Aí uns dias depois, choveu muito. [...] Quase ninguém foi à escola. Mas Alexandre foi. Entrou na classe e viu tudo vazio; chovia demais pra voltar pra casa; resolveu sentar e esperar. Lá pelas tantas a Professora chegou. Mas chegou sem a maleta. E com um jeito diferente, uma cara meio inchada, não contou coisa gozada, não riu nem nada. Sentou e ficou olhando pro chão. Alexandre achou que ela nem tinha visto ele:
— Oi!
Ela também disse oi, e continuou quieta. Depois de um tempo, Alexandre cansou de tanto ninguém dizer nada e falou:
— A chuva molhou sua cara.
A Professora nem se mexeu. Ele perguntou:
— Foi chuva?
Ela fez que sim com a cabeça. Alexandre resolveu esperar mais um pouco. Mas pelo jeito, a Professora tinha esquecido de dar aula. Será que era porque ela não tinha trazido a maleta? Arriscou:
— Cadê a maleta?
A Professora olhou pra ele sem saber muito bem o que é que dizia. Ele insistiu:
— Hem? Cadê?
— Perdi.
Ele se apavorou:
— Com tudo que tinha lá dentro?
— É.
— Os pacotes todos?
— É.
— O azul, o verde, o...
— É, é, é!!
Puxa, que susto! ela nunca tinha falado alto assim. Não perguntou mais nada, o coração ficou batendo, batendo, mas ela continuava sempre quieta, tão quieta que ele acabou não aguentando e perguntou de novo:
— Mas e agora? Como é que você vai dar aula sem a maleta?
— Não sei.
— Mas... escuta... você já procurou bem? — Ela fez que sim com a cabeça. — Botou anúncio no jornal? Diz que quando a gente bota anúncio quem acha dá pra gente. — Ela ficou quieta. — Botou?
— Botei.
— Ninguém achou?
— Não.
— Então como é que vai ser?
— Não sei.
— Dá jeito de você comprar os pacotes de novo?
— Não.
— Por quê? — Ela não disse nada. — Responde. Por quê?
— Eles vêm junto com a maleta; não vendem separado.
— Mas então compra outra maleta, pronto! — Ela ficou quieta de novo. E como o tempo ia passando e ela continuava sempre quieta, e a cara não secava nunca e não chovia lá dentro e a cara cada vez mais molhada, ele acabou pedindo:
— Compra, sim?
— Não dá, Alexandre. Eles não estão mais fabricando essas maletas hoje em dia.
E aí ele não perguntou mais nada. Ela também não falou mais. Até que a campainha tocou e a aula acabou.
BOJUNGA, Lygia. A casa da madrinha. 9. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1986.
Texto III
A FORÇA DO PROFESSOR
Um guerreiro sem espada
sem faca, foice ou facão
armado só de amor
segurando um giz na mão
o livro é seu escudo
que lhe protege de tudo
que possa lhe causar dor
por isso eu tenho dito
tenho fé e acredito
na força do professor.
Ah... se um dia governantes
prestassem mais atenção
nos verdadeiros heróis
que constroem a nação
ah... se fizessem justiça
sem corpo mole ou preguiça
lhe dando o real valor
eu daria um grande grito
tenho fé e acredito
na força do professor.
Porém não sinta vergonha
não se sinta derrotado A)
se o nosso país vai mal
você não é o culpado
nas potências mundiais
são sempre heróis nacionais B)
e por aqui sem valor
mesmo triste e muito aflito
tenho fé e acredito
na força do professor.
Um arquiteto de sonhos
engenheiro do futuro
um motorista da vida
dirigindo no escuro
um plantador de esperança C)
plantando em cada criança
um adulto sonhador D)
e esse cordel foi escrito
porque ainda acredito
na força do professor.
BESSA, Bráulio. Poesia com rapadura. Fortaleza: Cene, 2017.
O verso do Texto III que melhor se relaciona com o momento de frustração vivido pela Professora do Texto II é
- “não se sinta derrotado”
- “são sempre heróis nacionais”
- “um plantador de esperança”
- “um adulto sonhador”
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Gabarito
A
Comentário do professor
A linha "não se sinta derrotado" funciona como uma resposta direta ao estado emocional da Professora do Texto II. Ela perdeu a maleta que symbolizava seus instrumentos de trabalho e ficou abalada, muda e sem reação; esse é um quadro de frustração e desânimo.
O verso do Texto III age como um consolo e um chamado à resiliência: reconhece a dor, mas incentiva a não sucumbir diante do revés. Assim, estabelece uma relação de sentido entre o momento narrado e a atitude que se espera do educador.
Em termos didáticos, a frase destaca a dimensão afetiva do ensino: mesmo sem recursos, o professor pode manter sua força interior e continuar cumprindo sua missão.
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