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Questão FC831944

O ARRANJO Ela era cria da casa-grande, desde menina. Distraía-se e divertia-se com qualquer coisa, sem sorrir: não era alegre. Andava de corpo solto, boca aberta, olhos redondos. Q

Interpretação de Textos (Compreensão)

Pró Reitoria GP CP2 · 2017

O ARRANJO

Ela era cria da casa-grande, desde menina. Distraía-se e divertia-se com qualquer coisa, sem sorrir: não era alegre. Andava de corpo solto, boca aberta, olhos redondos. Quando a dona da casa estava irada, chamava-a de débil mental. Diziam que qualquer homem a teria, se quisesse. Ela não ficava contente mas grávida. Então os patrões, realmente cansados de distribuir por famílias os seus filhos, a injuriavam. Não usavam violência porque por princípio não eram violentos. Mas se ela almoçava, diziam: é claro, a fome duplicou. Se não almoçava, diziam: é claro, perdeu o apetite. Mandavam-na trabalhar com ironia: “mas não vá ter antes do tempo! já arrumamos com que família esse aí vai ficar!” Ela não se ofendia. O corpo crescia, e ela ficava cada vez mais amarela sob a cor de mulata quase branca. O que os patrões não perdoavam é que dessa vez tivesse acontecido com um “negro sujo”, como se eles tivessem para ela planos de um homem menos negro e mais limpo. Às vezes, quando ela passava com a bandeja na mão, olhavam-na com curiosidade e diziam em tom velado por causa dos netos presentes: logo um negro sujo. Um dia pareceu compreender melhor e disse muito alto: mas foram só três vezes! As crianças exultavam felizes, o pai, a mãe e os avós caíram em cólera pela pouca vergonha, expulsaram-na da sala – ainda por cima tropeçou no tapete e caiu sobre a bandeja. Mas não era escrava, como a outra cria da casa. A outra cria da casa de Laranjeiras tornara-se uma mulher perfeita para cuidar das roupas e das crianças, uma verdadeira escrava. Mas ela não era escrava: vivia independente deles e dava à luz os seus próprios filhos, distribuídos depois como gatos, amarelados como a mãe.

Dois anos depois encontrei-a na rua e ela me disse com modéstia e recato que vivia com um português. “Estou agora mesmo esperando por ele, marquei encontro”, me disse encostada no poste. Ele afinal apareceu na curva da esquina: velho, e era por isso que ela não estava grávida, gordo, trôpego. “Ele é muito bom para mim”, disse, como se explicasse tudo. Ele se manteve a curta distância, ouviu a frase, e abaixou os olhos, escondendo nunca se saberá o quê.

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 118.

O trecho do texto que NÃO se coaduna ao exposto no texto é

  1. “[...] os escravos, rotulados como subumanos ou inumanos, existiam relegados a um papel, na sociedade, correspondente à sua função na economia: mera força de trabalho.”.
  2. “Os africanos escravizados não mereciam nenhuma consideração como seres humanos relacionada com a continuidade da espécie no quadro da família organizada.”.
  3. “O Brasil herdou de Portugal a estrutura patriarcal de família e o preço dessa herança foi pago pela mulher negra.”.
  4. “[...] a formação do Brasil se verificou obedecendo a um processo de integração imune a qualquer preconceito.”.
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Gabarito

D

Comentário do professor

A afirmativa é incorreta porque o texto apresenta, de modo claro, situações de preconceito e discriminação racial. A personagem sofre insultos ("débile mental"), é alvo de comentários sobre a cor do parceiro ("negro sujo") e seus filhos são tratados como propriedade, distribuídos "como gatos".

Tais detalhes revelam uma relação social marcada pela desumanização e pela hierarquia racial, contrária à ideia de um processo de integração imune a qualquer preconceito. Assim, a afirmação de que a formação do Brasil ocorreu sem preconceitos não se coaduna com a representação da realidade social apresentada no trecho.

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