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Questão FC831954

Peço desculpa pela demora e pelo transtorno. Espero que o senhor não tenha se chateado. O importante é que encontramos o produto. Está em falta, sabe... Eles não entregam. Eu mesmo

Interpretação de Textos (Compreensão)

Pró Reitoria GP CP2 · 2017

TEXTO I

 

BONECA

 

Nenhuma! Cansou de tanto andar. Perguntara muito. Ouvira respostas de todo tipo. Algumas vezes, reagira à escassa delicadeza de certos balconistas e mesmo às ironias finas. Em outros momentos fora levado à autocomiseração, depois de ouvir, por exemplo:

 

Sinto muito!...

 

Ou:

 

Queira nos desculpar... A fábrica não fornece, sabe...

 

Desanimar? Não. Não havia por que desistir de encontrar o presente de Natal para a filha. Com os seus 33 anos, estava em plena forma física. Além disso, era como se a pequena o conduzisse pelas ruas do centro comercial. Continuar a procura, mesmo pisoteando o cansaço, era uma missão.

 

Com entusiasmo, entrou na loja seguinte. Cheia! Aguardou pacientemente. Uma mocinha branca, de ar meigo e aspecto subnutrido, indagou:

 

O senhor já foi atendido?

 

Não. Por gentileza, eu estou procurando uma boneca...

 

Temos várias. Olha aqui a Barbie, a Xuxinha... – e a loirinha foi apanhando diversas bonecas. Colocava-as sobre o balcão, como se escolhesse para si. Olha que gracinha esta aqui de olhos azuis! É novidade. Chegou ontem e já vendeu quase tudo. Chora, tem chupeta, faz pipi... E essa outra aqui? Não é uma graça? – e levou ao colo a ruivinha de tom amarelado, bem clarinha. Mexeu-lhe os bracinhos e as perninhas e indagou: Não gostou de nenhuma?

 

É que estou procurando uma boneca negra...

 

                                                                                                 ...

 

Meia hora de espera.

 

Tem sim! – o dono da loja dirigiu-se à empregada. Procura melhor, na prateleira de baixo, lá em cima mesmo, perto da pia.

 

A moça subiu de novo a escada, depois de sorrir um submisso constrangimento.

 

Desceu mais uma vez, recebeu novas instruções e tornou a sorrir. Em seguida, do alto do mezanino, mostrou o rostinho gorducho, marrom-escuro, de uma boneca. Radiante, a balconista empunhava-a como um troféu. Assim desceu a escada. Mas, descuidando-se nos degraus, despencou-se. Todos se apavoraram. As colegas de trabalho foram em socorro.

 

Nenhuma fratura. Apenas um susto. O patrão exasperou-se, mas logo conseguiu se controlar, vermelho como pimenta-malagueta. A loja estava cheia. Foi atender o cliente:

 

Peço desculpa pela demora e pelo transtorno. Espero que o senhor não tenha se chateado. O importante é que encontramos o produto. Está em falta, sabe... Eles não entregam. Eu mesmo encomendei a semana passada. Mas o representante disse que a firma está exportando para a África. Está certo, mas aqui também tem freguês que procura, não é? O senhor é brasileiro?

 

Sim. Então... – o homem engoliu a frase e preparou a nota.

 

                                                                                                  ...

 

Já na rua, o pai, entre tantos pensamentos, alguns desagradáveis, lembrou-se da descontração a que fazia jus, depois de suar expectativas naquela manhã de dezembro. Respirou fundo. Contemplou o lindo embrulho de motivações natalinas, em que se destacavam o Papai Noel, crianças louras e muita neve. Seguiu, passos lentos, em direção a uma lanchonete.

 

Vai uma loura gelada aí, chefe? – pronunciou o balconista ao vê-lo sentar-se junto do balcão.

 

Sorriu, confirmando com um gesto de polegar.

 

Ao primeiro gole de cerveja, sentiu-se profundamente aliviado e feliz.

 

Cuti. Contos crespos. São Paulo: Mazza. 2012. 2ª ed.

 

TEXTO II

 

MENINA ESCOLHE BONECA NEGRA E REBATE VENDEDORA QUE EMPURRAVA BRINQUEDO “MAIS PARECIDO COM ELA”

Uma menina de 2 anos emocionou internautas ao contestar uma vendedora que tentava convencê-la a comprar uma boneca branca, no lugar da boneca negra escolhida pela criança. Sophia Benner visitou a loja de brinquedos acompanhada dos pais, Brandi e Nick Benner, quando abandonou as fraldas. Ela poderia escolher uma boneca de presente e optou por um brinquedo de cor diferente da sua.

 

“Tem certeza que é essa que você quer, querida? Ela não se parece com você. Temos muitas outras que se parecem mais com você”, disse a vendedora, para o espanto do casal que já pagava o brinquedo no caixa.

 

A funcionária da loja na Carolina do Sul, nos Estados Unidos, ainda perguntou à pequena se ela iria a alguma festa de aniversário naquele dia, querendo saber se o brinquedo era um presente para outra criança. Sophia, no entanto, confirmou que a boneca era dela com a resposta mais fofa e consciente. A reação da garota foi postada pela mãe no Facebook e já tinha mais de 180 mil compartilhamentos até a manhã desta terça-feira.

 

“Sim, ela se parece comigo. Ela é uma médica, como eu sou uma médica. Eu sou uma menina bonita, e ela é uma menina bonita. Você vê o cabelo bonito dela? E o estetoscópio dela?”, respondeu Sophia, admirada com o novo brinquedo.

 

No Facebook, a mãe Brandi se mostrou orgulhosa da atitude da filha. Segundo ela, a própria vendedora elogiou depois a menina.

 

“Essa experiência só confirmou a minha crença de que não nascemos com a ideia de que a cor da pele importa. A pele vem em diferentes cores, como o cabelo e os olhos, e cada tom tem a sua beleza”, concluiu a mãe na publicação.

Extra, 04/04/2017. Disponível em: https://extra.globo.com/noticias/viral/menina-escolhe-boneca-negra-rebate-vendedora-que-empurrava-brinquedo-mais-parecido-com-ela-21156151.html

O dono da loja do texto e a vendedora do texto têm atitudes semelhantes.

A alternativa que informa adequadamente sobre essa semelhança é

  1. ambos elogiaram os novos compradores.
  2. ambos desistiram de vender bonecas loiras.
  3. ambos tentam se desculpar pela postura inicial.
  4. ambos demonstram pressa por concluir a venda.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Resposta C é correta porque em ambos os textos há tentativa explícita de reparar uma atitude inicial inadequada.

No Texto I, o dono da loja admite o transtorno e procura atenuar a falha com a fórmula direta de desculpa: "Peço desculpa pela demora e pelo transtorno." Esse discurso mostra reconhecimento da postura que causou desconforto ao cliente.

No Texto II, a vendedora, depois de tentar redirecionar a escolha da criança, modifica sua postura e passa a reconhecer e elogiar a decisão da menina; o texto informa que “a própria vendedora elogiou depois a menina”, gesto que tem função compensatória frente à atitude inicial.

Portanto, em ambos os casos há um movimento de retratação ou compensação, o que justifica a alternativa indicada.

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