Questão FC833493
Leia o texto a seguir. As redes sociais anestesiam sentimentos Perdemos a capacidade de refletir e até curtir a solidão. O celular traz desconexão. E o feed, ruptura Ruth de Aquino
Morfologia
SELECON · 2026
Leia o texto a seguir.
As redes sociais anestesiam sentimentos
Perdemos a capacidade de refletir e até curtir a solidão. O celular traz desconexão. E o feed, ruptura
Ruth de Aquino
Tristeza, raiva, desejo, inveja, humor e choque...em menos de 30 segundos de feed. Você abre o Instagram. Vê uma guerra. Depois um casal feliz. Um meme. Um corpo perfeito. Violência. Um cachorro fofo. Alguém chorando. Propaganda. Ódio político. Tudo em menos de 1 minuto. Mas nosso cérebro não foi feito para sentir tudo ao mesmo tempo.
[...] A constatação é da psicóloga Fernanda Silman [...]. Sem conseguir elaborar emoções na velocidade do feed, nossos sentimentos dão um nó. A tristeza vira anestesia. A indignação vira cansaço. O desejo vira comparação. E o choque vira rotina.
Tédio. Estou com tédio, dizem crianças e adolescentes quando sentem falta de um celular, um jogo, um iPad para se comunicar ou se divertir.
Ok, o tédio ensina. Mas ficar entediado virou insuportável. Esperar virou angústia. Silêncio virou vazio. Como diz Fernanda, “estamos desaprendendo a sustentar experiências que não estimulam imediatamente”. Daí a dificuldade de ler qualquer texto mais longo.
No momento, viajo sozinha na Europa. Estar só é uma posição privilegiada para observar o mundo. E refletir. Fico escandalizada com a onipresença do celular nas ruas, nos ônibus, nos metrôs, nos restaurantes, nos aeroportos, nos jardins.
No Rio e em SP, todo mundo tem medo de assalto e por isso, na rua, o celular não é tão visível. Mas em Paris, Londres, ou qualquer cidade europeia, o celular tornou-se uma extensão da mão – não importa a classe social, o figurino, o destino.
O olhar deixou de mirar em volta. As pessoas esbarram forte umas nas outras e o tal “eye contact” virou uma quimera. Ninguém enxerga ninguém. Só o aparelhinho. Um desperdício. Não olham a paisagem, a arquitetura, a moda de rua, as pessoas. No Rio, você pode até acabar engolido por um bueiro.
O maior efeito das redes não é nos tornar mais distraídos, diz Fernanda. Mas transformar nossa vida emocional num feed: rápido, fragmentado e incapaz de permanecer em algo ou alguém por muito tempo.
Norrena Hertz, britânica, autora do livro “O século da solidão”, diz que as pessoas vivem um distanciamento perigoso. Estão mais solitárias do que nunca. Norrena falou à jornalista Cecilia Malan. “As pessoas sentem que não são vistas nem ouvidas. Sem conexão”. É uma contradição, num mundo tão conectado.
Fonte: https://oglobo.globo.com/cultura/ruth-de-aquino/coluna/2026/06/as-redes-sociaisanestesiam- sentimentos.ghtml. Excerto. Acesso em 04/06/2026
No trecho "Mas nosso cérebro não foi feito para sentir tudo ao mesmo tempo", o conectivo em destaque estabelece com o período anterior uma relação de:
- explicação
- conclusão
- contraste
- adição
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Mas funciona aqui como conectivo de contraste. Ao introduzir a oração "Mas nosso cérebro não foi feito para sentir tudo ao mesmo tempo", o autor contrapõe-se ao período anterior que descreve a sucessão rápida e variada de emoções no feed.
Sem mimetizar a frase anterior, o conectivo marca oposição entre a realidade do fluxo informacional e a capacidade humana de processar emoções. Assim, distancia a ideia anterior e aponta uma limitação ou ressalva.
Do ponto de vista sintático, trata-se de uma conjunção coordenativa adversativa, que indica relação de restrição ou contraposição entre orações. O efeito argumentativo é enfatizar o conflito entre velocidade digital e funcionamento psicológico humano.
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