Questão FC833572
— A senhora não tem?
Semântica
SELECON · 2025
Leia o texto a seguir:
A corretora
Rubem Braga
A mulher entrou no meu escritório com um sorriso muito amável e os olhos muito azuis. Desenrolou um mapa e começou a falar com uma certa velocidade, como é uso dos chilenos. Gosto de ver mapas, e me ergui para olhar aquele.
Quando percebi que se tratava de um loteamento, e a mulher queria me vender uma “parcela”, me coloquei na defensiva; disse que no momento suspendi meus negócios imobiliários, e até estava pensando em vender meus imensos territórios no Brasil; que além disso o Chile é um país muito estreito e sua terra deveria ser dividida entre seu povo; até ficaria mal a um estrangeiro querer especular com um trecho de “faja angosta”, que é como os chilenos chamam sua tira estreita de terra, que por sinal costumam dizer que é “larguísima”, para assombro do brasileiro, recém-chegado que não sabe que isso em castelhano quer dizer “compridíssima”.
Os olhos azuis fixaram-se nos meus, a mão ágil mergulhou numa pasta, extraiu de lá a fotografia de um terreno plantado de pinheirinhos de dois ou três anos; não se tratava de especulação imobiliária; dentro de poucos anos eu seria um madeireiro, poderia cortar meus pinheiros... Ponderei que tenho uma pena imensa de cortar árvores.
— A senhora não tem?
Ela também tinha. E então baixou a voz, sombreou os olhos de poesia, e me disse que ela mesma, corretora, também comprara duas parcelas naquele terreno. E tinha certeza — confessava — que também não teria coragem de mandar cortar seus pinheiros; também adorava árvores e passarinhos, cortaria apenas os pinheiros necessários para fazer uma casinha de madeira; o lugar é lindo, em um pequeno planalto, dá para uns penedos junto ao mar; as árvores choram e cantam com as ondas quando sopra o vento do oceano...
Confesso que paguei a primeira prestação; ela passou o recibo, sorriu, me disse muchas gracias, e hasta lueguito e partiu com seus olhos azuis, me deixando meio tonto, com a vaga impressão de ter comprado o oceano Pacífico.
Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/11250/a-corretora. Acesso em 08/01/2025
“[...] cortaria apenas os pinheiros necessários para fazer uma casinha de madeira [...]” (5º parágrafo). Nesse trecho, o conectivo em destaque tem sentido de:
- causa
- adição
- finalidade
- consequência
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
Certo
Comentário do professor
A palavra para no trecho funciona como marcador de finalidade. Liga o substantivo "pinheiros necessários" à ação que se pretende realizar: fazer uma casinha de madeira.
Uma forma prática de verificar esse valor semântico é substituir para por expressões equivalentes de propósito, como com a finalidade de ou a fim de, mantendo o sentido: "pinheiros necessários com a finalidade de fazer uma casinha".
Sintaticamente, para introduz uma expressão que explica a intenção ou uso dos pinheiros, indicando o objetivo da ação de cortá‑los, ou seja, o propósito da escolha daqueles exemplares.
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em