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Questão FC833599

Ou permitir que o termo "Judenrein" — contra o qual seus antepassados lutaram — acabe por se instituir no país que ele governa?

Semântica

SELECON · 2025

Leia o texto a seguir:

 

Há lugares no Reino Unido onde os judeus já não entram

 

José Pereira Coutinho

 

Sou anglófilo, como boa parte da minha geração. Mas essa anglofilia é mais imaginária do que real: a Inglaterra que me interessa existe na minha cabeça — feita de livros, músicas, arte, filmes e de lugares que pertenceram a outro tempo.

 

Como dizia Eça de Queirós sobre o "francesismo" dos portugueses, eu também importo tudo: ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, modas e bobagens — que me chegam em caixotes pelo paquete, como nos velhos navios de correio.

 

A Inglaterra real de hoje é outro planeta: uma sociedade tribalizada, que formou ou acolheu fanáticos antissemitas — e que tolera passeatas que clamam pelo genocídio. Amigos judeus me dizem com frequência que já não se sentem seguros em certos lugares do país.

 

Acredito neles. E confirmo seus temores: o Daily Telegraph informa que a partida entre Aston Villa e Maccabi Tel Aviv, pela Liga Europa, não terá a presença da torcida israelense.

 

"Questões de segurança", dizem as autoridades de Birmingham — um belo eufemismo, uma bela rendição. Julgava eu que a função da polícia seria garantir essa segurança sem excluir, à partida, um grupo nacional inteiro.

 

Se há selvagens entre os torcedores do Maccabi, que eles sejam vigiados e impedidos de entrar. Se há selvagens antissemitas do outro lado, que eles também o sejam.

 

Mas essas evidências não parecem pesar na Inglaterra atual.

 

Semanas atrás, o conhecido clérigo muçulmano de Birmingham Asrar Rashid escreveu nas redes sociais: "Quando a torcida de Tel Aviv chegar, não teremos qualquer piedade para com eles."

 

Na minha opinião, eis um exemplo perfeito de "discurso de ódio" com incitamento à violência. Não consta, porém, que Rashid tenha sido investigado pela polícia. Esses privilégios parecem recair apenas sobre certos humoristas — como Graham Linehan, detido no aeroporto de Heathrow em setembro após postar uma piada sobre criminosos que se fazem passar por mulheres trans para cumprir pena em presídios femininos.

 

O primeiro-ministro Keir Starmer condenou com veemência a exclusão da torcida israelense. Mas o que pensa fazer? Enviar o Exército a Birmingham para confrontar radicais islamistas?

 

Ou permitir que o termo "Judenrein" — contra o qual seus antepassados lutaram — acabe por se instituir no país que ele governa?

 

Melhor não apostar.

 

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2025/10/ha-lugares

-no-reino-unido-onde-os-judeus-ja-nao-entram.shtml. Acesso em 18/10/2025

 

"Como dizia Eça de Queirós sobre o 'francesismo' dos portugueses".

 

Nesse trecho, as aspas em "francesismo" servem para:

  1. indicar discurso direto
  2. indicar discurso indireto
  3. identificar o título de uma obra literária
  4. realçar uso irônico ou questionável do termo
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Gabarito

D

Comentário do professor

"Francesismo" entre aspas funciona como sinal de escárnio ou de distanciamento do locutor em relação ao termo. As aspas indicam que a palavra não é adotada de forma natural, mas usada com sentido especial, irônico ou problemático.


Neste contexto, o autor cita Eça de Queirós e reaplica a expressão sinalizando que o rótulo é discutível ou contestável. As aspas atuam como um comentário paratextual que convoca o leitor a não aceitar o termo literalmente.


Em termos pragmáticos, trata‑se de uma marca de metalinguagem: o uso aponta para a forma, não apenas para o conteúdo, e revela a atitude crítica do enunciador quanto à adequação da palavra.

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