Questão FC833796
Chegaremos algum dia a navegar entre as estrelas?
Interpretação de Textos (Compreensão)
SELECON · 2026
Leia o texto a seguir:
Esperando os aliens
Chegaremos a navegar entre as estrelas?
Sempre que vejo o noticiário, duvido. Mas depois escuto a gargalhada
da minha filha e volto a acreditar
Dinte do estado do mundo não surpreende que tantas pessoas acompanhem, ansiosas, o trajeto de um meteorito, o 3I/ Atlas, e rezem para que seja uma nave alienígena.
Para essas pessoas, entre as quais se incluem alguns cientistas desesperados, o meteorito representa a derradeira esperança da Humanidade. Os extraterrestres viriam salvar-nos de nós mesmos — da nossa crueldade, da nossa ganância e da nossa incompetência. Teriam o coração generoso de Mahatma Gandhi, o talento pacifi cador de Nelson Mandela e a inteligência bem-humorada de Chimamanda Adichie. Viriam em missão diplomática e pedagógica, trazer-nos a paz, e, ao mesmo tempo, explicar-nos como se administra um planeta.
Durante séculos, erguemos os olhos para os céus em busca de deuses. Agora procuramos engenheiros. Mudou o vocabulário, não a fé. A teologia foi substituída pela astrobiologia. Já não esperamos o Messias — aguardamos o bom marciano.
Os massacres se multiplicam, as democracias ameaçam entrar em colapso, os glaciares derretem, o clima enlouquece.
Diante desse cenário, a Humanidade, incapaz de arrumar a própria casa, começa a sonhar com um síndico intergaláctico. Que venha alguém de fora, mais sensato, mais lúcido, menos violento, que nos diga com voz doce e levemente metálica: “Queridos terráqueos, isto assim não pode continuar. Vamos tentar fazer diferente?”
Quanto a mim, acho que morreria de vergonha no momento em que o nosso bom alienígena descesse da sua nave para apertar a mão a Donald Trump, a Vladimir Putin ou a Xi Jinping.
Talvez existam, de fato, civilizações alienígenas conscientes da nossa existência. Suspeito que olharão para nós com imensa piedade — ou, pior, com profundo terror.
Acredito que uma civilização só consiga alcançar um estado de desenvolvimento tecnológico muito avançado se tiver sido capaz, antes, de abandonar a violência e a crueldade.
Civilizações violentas tendem a servir-se do conhecimento para produzir armas cada vez mais letais, desgastando-se em guerras absurdas, muito antes de aprenderem a navegar entre as estrelas. É o que está acontecendo com a nossa.
O mais provável é que o 3I/Atlas não passe de uma grande pedra vagando sem destino — como nós. No íntimo, porém, também eu gostaria que fosse uma nave espacial. Imagino-a pousando suavemente no discoporto de Barra do Garças, na Serra Azul, em Mato Grosso. Dela desceriam seres luminosos, dotados de infinita paciência, que, com um simples estalar de dedos, transformariam em água todas as armas existentes no planeta. [...]
Não virá ninguém. Nenhum gigante alado atravessará as nuvens para nos ensinar boas maneiras cósmicas.
Continuaremos assassinando crianças, incendiando florestas, discutindo em casa e no trânsito. A nave que aguardamos somos nós: enguiçada, ruidosa, movida a contradições. Cada pequeno gesto de solidariedade para com os mais frágeis representa um conserto improvisado no casco. Cada sorriso sincero, um reparo na fuselagem.
Chegaremos algum dia a navegar entre as estrelas?
Sempre que assisto ao noticiário, duvido. Depois escuto a gargalhada da minha filha e volto a acreditar.
Fonte: https://oglobo.globo.com/cultura/jose-eduardo-agualusa/coluna/2025/11/ esperando-os-aliens.ghtml. Acesso em 01/11/2025
O desfecho do texto, retomando a gargalhada da filha, configura:
- uma reafirmação trágica da ruína civilizacional
- um retorno ao pessimismo inicial, sem possibilidade de superação
- um movimento circular argumentativo que anula a reflexão proposta
- uma reintrodução da esperança, a partir da esfera íntima e afetiva
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Gabarito
D
Comentário do professor
Resposta correta: a alternativa indica a reintrodução da esperança a partir da dimensão pessoal e afetiva.
O desfecho retoma a frase inicial "Sempre que assisto ao noticiário, duvido. Depois escuto a gargalhada da minha filha e volto a acreditar", deslocando a confiança do plano coletivo para o íntimo.
Enquanto o corpo do texto enumera crises globais e pessimismo, o final prefere uma imagem concreta e afetiva. A gargalhada da filha funciona como motivo simbólico de renovação: não vem de um salvador externo, mas de um laço humano que inspira cuidado e esperança.
Assim, o texto conclui valorizando pequenos gestos e afeto como reparos possíveis à nossa "nave" comum, o que confirma a leitura proposta pela alternativa.
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