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Questão FC833830

— A senhora não tem?

Interpretação de Textos (Compreensão)

SELECON · 2025

Leia o texto a seguir:

A corretora

Rubem Braga

 

A mulher entrou no meu escritório com um sorriso muito amável e os olhos muito azuis. Desenrolou um mapa e começou a falar com uma certa velocidade, como é uso dos chilenos. Gosto de ver mapas, e me ergui para olhar aquele.

 

Quando percebi que se tratava de um loteamento, e a mulher queria me vender uma “parcela”, me coloquei na defensiva; disse que no momento suspendi meus negócios imobiliários, e até estava pensando em vender meus imensos territórios no Brasil; que além disso o Chile é um país muito estreito e sua terra deveria ser dividida entre seu povo; até ficaria mal a um estrangeiro querer especular com um trecho de “faja angosta”, que é como os chilenos chamam sua tira estreita de terra, que por sinal costumam dizer que é “larguísima”, para assombro do brasileiro, recém-chegado que não sabe que isso em castelhano quer dizer “compridíssima”.

 

Os olhos azuis fixaram-se nos meus, a mão ágil mergulhou numa pasta, extraiu de lá a fotografia de um terreno plantado de pinheirinhos de dois ou três anos; não se tratava de especulação imobiliária; dentro de poucos anos eu seria um madeireiro, poderia cortar meus pinheiros... Ponderei que tenho uma pena imensa de cortar árvores.

 

— A senhora não tem?

 

Ela também tinha. E então baixou a voz, sombreou os olhos de poesia, e me disse que ela mesma, corretora, também comprara duas parcelas naquele terreno. E tinha certeza — confessava — que também não teria coragem de mandar cortar seus pinheiros; também adorava árvores e passarinhos, cortaria apenas os pinheiros necessários para fazer uma casinha de madeira; o lugar é lindo, em um pequeno planalto, dá para uns penedos junto ao mar; as árvores choram e cantam com as ondas quando sopra o vento do oceano...

 

Confesso que paguei a primeira prestação; ela passou o recibo, sorriu, me disse muchas gracias, e hasta lueguito e partiu com seus olhos azuis, me deixando meio tonto, com a vaga impressão de ter comprado o oceano Pacífico.

 

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/11250/a-corretora. Acesso em 08/01/2025

 

O texto anterior é uma crônica produzida por Rubem Braga. Seu objetivo é:

  1. incentivar um maior número de transações comerciais no ramo imobiliário
  2. criticar os empreendimentos que têm potencial de destruição do meio ambiente
  3. retratar uma cena do cotidiano de modo leve, com o intuito de provocar uma reflexão
  4. informar acerca de negócios, como é o caso das compras de terrenos e os perigos implicados
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Crônica de Rubem Braga tem como finalidade principal retratar o cotidiano com linguagem simples e um tom bem-humorado, aproximando o leitor da cena narrada. O relato da visita da corretora, o mapa, os pinheirinhos e o sorriso são elementos do dia a dia trabalhados com leveza, ironia e detalhe sensorial.

Essa leveza surge na voz do narrador, nas pequenas digressões e no humor contido, que suavizam a situação e tornam a leitura agradável. Ao mesmo tempo, imagens e escolhas lexicais ampliam a dimensão poética da cena.

O texto provoca reflexão ao expor contradições do narrador sobre venda, posse e corte de árvores, e pela metáfora final de ter comprado o oceano Pacífico, que convida o leitor a pensar sobre desejo, especulação e relação com a natureza.

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