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Questão FC833831

— A senhora não tem?

Interpretação de Textos (Compreensão)

SELECON · 2025

Leia o texto a seguir:

A corretora

Rubem Braga

 

A mulher entrou no meu escritório com um sorriso muito amável e os olhos muito azuis. Desenrolou um mapa e começou a falar com uma certa velocidade, como é uso dos chilenos. Gosto de ver mapas, e me ergui para olhar aquele.

 

Quando percebi que se tratava de um loteamento, e a mulher queria me vender uma “parcela”, me coloquei na defensiva; disse que no momento suspendi meus negócios imobiliários, e até estava pensando em vender meus imensos territórios no Brasil; que além disso o Chile é um país muito estreito e sua terra deveria ser dividida entre seu povo; até ficaria mal a um estrangeiro querer especular com um trecho de “faja angosta”, que é como os chilenos chamam sua tira estreita de terra, que por sinal costumam dizer que é “larguísima”, para assombro do brasileiro, recém-chegado que não sabe que isso em castelhano quer dizer “compridíssima”.

 

Os olhos azuis fixaram-se nos meus, a mão ágil mergulhou numa pasta, extraiu de lá a fotografia de um terreno plantado de pinheirinhos de dois ou três anos; não se tratava de especulação imobiliária; dentro de poucos anos eu seria um madeireiro, poderia cortar meus pinheiros... Ponderei que tenho uma pena imensa de cortar árvores.

 

— A senhora não tem?

 

Ela também tinha. E então baixou a voz, sombreou os olhos de poesia, e me disse que ela mesma, corretora, também comprara duas parcelas naquele terreno. E tinha certeza — confessava — que também não teria coragem de mandar cortar seus pinheiros; também adorava árvores e passarinhos, cortaria apenas os pinheiros necessários para fazer uma casinha de madeira; o lugar é lindo, em um pequeno planalto, dá para uns penedos junto ao mar; as árvores choram e cantam com as ondas quando sopra o vento do oceano...

 

Confesso que paguei a primeira prestação; ela passou o recibo, sorriu, me disse muchas gracias, e hasta lueguito e partiu com seus olhos azuis, me deixando meio tonto, com a vaga impressão de ter comprado o oceano Pacífico.

 

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/11250/a-corretora. Acesso em 08/01/2025

 

“A mulher entrou no meu escritório com um sorriso muito amável e os olhos muito azuis” (1º parágrafo). Nesse trecho do texto, o cronista ressalta alguns traços da mulher, e o objetivo é:

  1. realçar a bondade da mulher
  2. destacar um aspecto psicológico da personagem
  3. passar ao leitor a imagem de que a mulher era desonesta
  4. criar um clima de sedução, haja vista o destaque ao charme e a um traço físico da mulher
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Gabarito

D

Comentário do professor

A frase inicial destaca rapidamente traços físicos e afetivos: o sorriso muito amável e os olhos muito azuis. Esses elementos, apresentados já na entrada da personagem, criam de imediato um clima de sedução ao favorecer uma imagem atraente e próxima do narrador.


O uso de adjetivos intensificadores como muito intensifica a impressão positiva, enquanto a ordem direta coloca o encanto como característica saliente. Essa focalização pelo narrador informa que a mulher provoca interesse e simpatia, atuando sobre a percepção do leitor.


Em termos narrativos, a descrição funciona como estratégia persuasiva: ao enfatizar charme e aparência, prepara a aceitação do narrador diante das propostas dela, justificando seu comportamento subsequente e confirmando o efeito sedutor inicial.

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