Questão FC833834
— A senhora não tem?
Interpretação de Textos (Compreensão)
SELECON · 2025
Leia o texto a seguir:
A corretora
Rubem Braga
A mulher entrou no meu escritório com um sorriso muito amável e os olhos muito azuis. Desenrolou um mapa e começou a falar com uma certa velocidade, como é uso dos chilenos. Gosto de ver mapas, e me ergui para olhar aquele.
Quando percebi que se tratava de um loteamento, e a mulher queria me vender uma “parcela”, me coloquei na defensiva; disse que no momento suspendi meus negócios imobiliários, e até estava pensando em vender meus imensos territórios no Brasil; que além disso o Chile é um país muito estreito e sua terra deveria ser dividida entre seu povo; até ficaria mal a um estrangeiro querer especular com um trecho de “faja angosta”, que é como os chilenos chamam sua tira estreita de terra, que por sinal costumam dizer que é “larguísima”, para assombro do brasileiro, recém-chegado que não sabe que isso em castelhano quer dizer “compridíssima”.
Os olhos azuis fixaram-se nos meus, a mão ágil mergulhou numa pasta, extraiu de lá a fotografia de um terreno plantado de pinheirinhos de dois ou três anos; não se tratava de especulação imobiliária; dentro de poucos anos eu seria um madeireiro, poderia cortar meus pinheiros... Ponderei que tenho uma pena imensa de cortar árvores.
— A senhora não tem?
Ela também tinha. E então baixou a voz, sombreou os olhos de poesia, e me disse que ela mesma, corretora, também comprara duas parcelas naquele terreno. E tinha certeza — confessava — que também não teria coragem de mandar cortar seus pinheiros; também adorava árvores e passarinhos, cortaria apenas os pinheiros necessários para fazer uma casinha de madeira; o lugar é lindo, em um pequeno planalto, dá para uns penedos junto ao mar; as árvores choram e cantam com as ondas quando sopra o vento do oceano...
Confesso que paguei a primeira prestação; ela passou o recibo, sorriu, me disse muchas gracias, e hasta lueguito e partiu com seus olhos azuis, me deixando meio tonto, com a vaga impressão de ter comprado o oceano Pacífico.
Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/11250/a-corretora. Acesso em 08/01/2025
Em termos cronológicos, a compra do terreno:
- não ocorreu na realidade, pois tudo foi um sonho do homem
- já tinha sido decidida antes de o homem ver a fotografia do local
- acabou não se concretizando, pois o homem já havia decidido que não investiria em países estrangeiros
- foi decidida após o diálogo entre o homem e a mulher acerca das características físicas e ambientais do local
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Gabarito
D
Comentário do professor
Afirmação: a compra foi decidida após o diálogo sobre as características do terreno.
O texto apresenta sequência clara: a mulher entra, o narrador resiste e expõe objeções. Em seguida ela mostra a fotografia dos pinheirinhos e descreve poeticamente o lugar, mencionando a proximidade do mar e o afeto por árvores e passarinhos.
Essa conversa produz efeito direto sobre o narrador; a narrativa registra sua disposição alterada e a ação concreta. Está explícito: “Confesso que paguei a primeira prestação”, colocada logo após a descrição e a confissão da corretora.
Portanto, cronologicamente a decisão de comprar ocorre depois da troca verbal sobre as características físicas e ambientais do local, pois é dessa interação que nasce a compra efetivada pelo pagamento.
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