Questão FC869678
Quais estão corretas?
Fonética (Fonemas, Dígrafos, Encontros Consonantais, Vocálicos). Separação Silábica
FUNDATEC · 2026
O espetáculo do hermetismo*: a retórica oracular contra a generosidade intelectual
Por Marco Aurélio Werle
Há um modelo contemporâneo de pensador público cuja autoridade não se constrói pela capacidade de iluminar, mas pelo poder de encantar através da opacidade. É o intelectual oracular, figura cativa de debates acadêmicos e mesas-redondas, cujo ensaísmo opera prioritariamente por meio de um labirinto retórico sedutor.
Em suas exposições, a linearidade tradicional — com começo, meio e fim — é deliberadamente sacrificada. O discurso flui por livre associação de ideias, costurando de forma vertiginosa fragmentos de notícias cotidianas, erudição histórica e saltos temporais bruscos. Essa colagem textual cumpre uma função psicológica precisa: gerar no espectador uma forte e imediata sensação de urgência, desamparo e catástrofe iminente.
O ganho estético e performático dessa abordagem, porém, cobra um preço altíssimo na clareza. Ao término da exposição, salvo se o ouvinte tentar colocar no papel a cadeia lógica de causas e efeitos para reconstruir o argumento passo a passo, perceberá que a estrutura conceitual se dissolveu em fumaça. A fala funciona mais como um transe afetivo do que como transmissão de conhecimento estruturado. Produz-se um efeito de profundidade pelo excesso de conexões herméticas e hipercomplexas. Essa blindagem retórica não é inocente; ela protege a argumentação contra qualquer contestação factual ou empírica, afinal, torna-se virtualmente impossível refutar teses que se recusam terminantemente a se fixar em hipóteses nítidas. Para sustentar esse diagnóstico de colapso permanente e paralisia social, esse tipo de análise recorre à personificação de grandes abstrações econômicas e sociais. Conceitos macroestruturais e sistêmicos — como “o Capital”, “o Mercado” ou “o Estado” — deixam de ser entendidos como processos dinâmicos movidos por conflitos de classe e agências humanas concretas. Passam a ser tratados como sujeitos autônomos e conscientes, dotados de vontade própria, intenções malévolas deliberadas e estratégias ocultas de dominação. Esse movimento teórico resvala em um determinismo absoluto e conspiratório que apaga as contradições internas das elites e as contingências imprevisíveis do cotidiano. Paralelamente, esse olhar alimenta o mito de uma excepcionalidade trágica local, tratando a realidade como uma “singularidade maldita”, uma anomalia isolada do resto do planeta. Ao fechar os olhos para comparações, prefere-se o isolamento do “caso único” à evidência de que os mesmos fenômenos de precarização ocorrem de forma semelhante em outros locais.
Por fim, esse posicionamento crítico se protege atrás de uma ironia constante e de um falso despojamento. O deboche soberbo direcionado às ilusões do progresso, às tentativas de reforma institucional e à ingenuidade de quem ainda tenta agir politicamente cria um escudo de imunidade total para quem fala. Instalado na chave do sarcasmo intransigente, o observador se coloca acima do erro e da prática, desobrigando-se inteiramente de propor caminhos viáveis, defender programas ou assumir os riscos de uma intervenção real na história.
O saber, dessa forma, deixa de ser um bem comum e se transforma em um espetáculo de conhecimento inalcançável e privativo. Em vez de instrumentalizar o público com ferramentas conceituais replicáveis para que compreenda e transforme de forma independente a própria realidade, essa postura gera uma relação de dependência afetiva e passividade intelectual. O ouvinte consome o pessimismo do mestre como um certificado de lucidez, mas sai da sala de mãos vazias. O oposto absoluto desse modelo autoritário e excludente seria uma pedagogia verdadeiramente democrática e generosa. Uma postura cuja influência se baseia na máxima clareza metodológica, na simplicidade nobre da partilha e na disposição transparente de ter as próprias ideias testadas, criticadas e superadas por qualquer pessoa.
(Disponível em: https://jornal.usp.br/?p=1024676 – texto adaptado especialmente para esta prova).
*hermetismo
2 p.ext. saber oculto, esotérico, reservado a poucos
3 p.ext. caráter daquilo que é difícil de compreender e/ou interpretar
(HERMETISMO. In: DICIONÁRIO HOUAISS. [S. l.]: UOL, [s. d.]. Disponível em: https://houaiss.uol.com.br/houaisson/apps/uol_www/vopen/html/inicio.php/4c9/hermetismo. Acesso em: 20 jun. 2026.)
Sobre alguns vocábulos da frase “Há um modelo contemporâneo de pensador público cuja autoridade não se constrói pela capacidade de iluminar, mas pelo poder de encantar através da opacidade”, retirada do texto, analise as assertivas abaixo:
I. Em “Há” ocorre apenas um fonema.
II. Em “público” observa-se a ocorrência de um encontro consonantal.
III. As palavras “capacidade” e “opacidade” têm o mesmo número de sílabas.
Quais estão corretas?
- Apenas I.
- Apenas III.
- Apenas I e II.
- Apenas II e III.
- I, II e III.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
Há: a letra h é muda em português; ao pronunciar "há" ouvimos apenas o som vocálico /a/. Logo, existe um único fonema, o da vogal, o que confirma a assertiva.
Público: a palavra se divide em sílabas como pú‑bli‑co. As consoantes b e l aparecem juntas na mesma sílaba (bli), formando um encontro consonantal (duas consoantes adjacentes que não formam dígrafo).
Capacidade e opacidade: ambas se segmentam em cinco sílabas: ca‑pa‑ci‑da‑de e o‑pa‑ci‑da‑de. Assim, têm o mesmo número de sílabas, confirmando a terceira assertiva.
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