Questão FC869694
Sobre o sofrimento e sobre a felicidade Acho que sabedoria é saber sofrer pelas razões certas. Quem não sofre, quando há razões para isso, está doente. Se uma pessoa querida morre
Morfologia
IDECAN · 2026
Sobre o sofrimento e sobre a felicidade
Acho que sabedoria é saber sofrer pelas razões certas. Quem não sofre, quando há razões para isso, está doente. Se uma pessoa querida morre e o coração não sangra, se um golpe duro da vida atinge a quem se ama e os olhos não choram, se uma desgraça cai sobre o povo e a alma não fica triste, se o fogo consome as florestas e o corpo não queima também, é porque algo está errado com a gente.
Quem é feliz e nunca sofre padece de uma grave enfermidade e precisa ser tratada a fim de aprender a sofrer. Sofrer pelas razões certas significa que estamos em contato com a realidade, que o corpo e a alma sentem a tristeza das perdas e que existe em nós o poder do amor. Só não sofrem, quando para isso há razões, aqueles que perderam a capacidade de amar. Toda experiência de amor traz, encolhida no seu ventre, à espera, a possibilidade de sofrer. Assim, a receita para não sofrer é muito simples: basta “matar” o amor.
Mas que enorme seria a perda se isso acontecesse! Porque é o sofrimento que nos faz pensar. Pensamos ou para encontrar formas de eliminar o sofrimento, quando isso é possível, ou para dar um sentido ao sofrimento, quando ele não pode ser evitado. O pensamento, assim, filho da dor, está a serviço da alegria. Todas as belas conquistas do espírito humano, da poesia à ciência, nasceram assim.
Mas há outros sofrimentos que não nascem de perdas reais. A felicidade pode ser destruída por uma doença que mora em nossos olhos. O que é ilustrada por esta estorieta que gosto de contar:
“Um homem encontra uma garrafa que estava enterrada e, ao abri-la, surpreende-se com a saída de um gênio, que se coloca ao seu serviço. O gênio diz ao homem que pode transformar em realidade todos os seus sonhos.
Tão logo percebe que aquilo era mesmo possível, o felizardo começa a imaginar tudo o que poderia pedir: a juventude, uma beleza física irresistível, palácios deslumbrantes nos quatro cantos do mundo, serviçais, as mais belas mulheres, os melhores vinhos, as comidas mais saborosas, os amigos fiéis. Seus olhos brilham, pois ele sabe que tem nas mãos a chave para a felicidade. Mas, o gênio calmamente diz ao homem que havia se esquecido de mencionar apenas um detalhe: tudo aquilo que o homem pedisse para si o seu pior inimigo receberia em dobro!
Logo, como que por encanto, a face do sortudo muda de expressão, tornando-se mais séria e mais sombria. Ele para, pensa e, novamente com um sorriso de realização, dirige-se ao gênio para fazer seu único pedido: “quero que me fure um olho”.
ALVES, Rubem. A eternidade numa hora. 1. ed. São Paulo: Planeta, 2017.
“Mas que enorme seria a perda se isso acontecesse!”
O verbo realçado indica um fato que:
- ocorrerá em um momento posterior ao da fala.
- ocorreu antes de outro, também no passado.
- aconteceu antes do momento em que falamos.
- poderia ter acontecido posteriormente a uma situação passada.
- ocorria de forma contínua, habitual, mas foi interrompido.
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Gabarito
D
Comentário do professor
"Seria", em "Mas que enorme seria a perda se isso acontecesse!", está no futuro do pretérito do indicativo e carrega valor condicional: não afirma um fato realizado, mas uma consequência possível.
Essa forma se liga à oração condicionante "se isso acontecesse", no pretérito imperfeito do subjuntivo, formando uma estrutura hipotética típica: condição + consequência.
Temporalmente, a consequência indicada por seria refere‑se a um evento que poderia ocorrer em sequência a um ponto considerado no passado ou a uma hipótese situada em relação a esse ponto.
Assim, a frase transmite a ideia de que a perda poderia acontecer posteriormente a uma situação passada ou hipotética, o que corresponde exatamente ao enunciado da alternativa correta.
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