Questão FC869698
O espetáculo do hermetismo*: a retórica oracular contra a generosidade intelectual Por Marco Aurélio Werle Há um modelo contemporâneo de pensador público cuja autoridade não se con
Morfologia
FUNDATEC · 2026
O espetáculo do hermetismo*: a retórica oracular contra a generosidade intelectual
Por Marco Aurélio Werle
Há um modelo contemporâneo de pensador público cuja autoridade não se constrói pela capacidade de iluminar, mas pelo poder de encantar através da opacidade. É o intelectual oracular, figura cativa de debates acadêmicos e mesas-redondas, cujo ensaísmo opera prioritariamente por meio de um labirinto retórico sedutor.
Em suas exposições, a linearidade tradicional — com começo, meio e fim — é deliberadamente sacrificada. O discurso flui por livre associação de ideias, costurando de forma vertiginosa fragmentos de notícias cotidianas, erudição histórica e saltos temporais bruscos. Essa colagem textual cumpre uma função psicológica precisa: gerar no espectador uma forte e imediata sensação de urgência, desamparo e catástrofe iminente.
O ganho estético e performático dessa abordagem, porém, cobra um preço altíssimo na clareza. Ao término da exposição, salvo se o ouvinte tentar colocar no papel a cadeia lógica de causas e efeitos para reconstruir o argumento passo a passo, perceberá que a estrutura conceitual se dissolveu em fumaça. A fala funciona mais como um transe afetivo do que como transmissão de conhecimento estruturado. Produz-se um efeito de profundidade pelo excesso de conexões herméticas e hipercomplexas. Essa blindagem retórica não é inocente; ela protege a argumentação contra qualquer contestação factual ou empírica, afinal, torna-se virtualmente impossível refutar teses que se recusam terminantemente a se fixar em hipóteses nítidas. Para sustentar esse diagnóstico de colapso permanente e paralisia social, esse tipo de análise recorre à personificação de grandes abstrações econômicas e sociais. Conceitos macroestruturais e sistêmicos — como “o Capital”, “o Mercado” ou “o Estado” — deixam de ser entendidos como processos dinâmicos movidos por conflitos de classe e agências humanas concretas. Passam a ser tratados como sujeitos autônomos e conscientes, dotados de vontade própria, intenções malévolas deliberadas e estratégias ocultas de dominação. Esse movimento teórico resvala em um determinismo absoluto e conspiratório que apaga as contradições internas das elites e as contingências imprevisíveis do cotidiano. Paralelamente, esse olhar alimenta o mito de uma excepcionalidade trágica local, tratando a realidade como uma “singularidade maldita”, uma anomalia isolada do resto do planeta. Ao fechar os olhos para comparações, prefere-se o isolamento do “caso único” à evidência de que os mesmos fenômenos de precarização ocorrem de forma semelhante em outros locais.
Por fim, esse posicionamento crítico se protege atrás de uma ironia constante e de um falso despojamento. O deboche soberbo direcionado às ilusões do progresso, às tentativas de reforma institucional e à ingenuidade de quem ainda tenta agir politicamente cria um escudo de imunidade total para quem fala. Instalado na chave do sarcasmo intransigente, o observador se coloca acima do erro e da prática, desobrigando-se inteiramente de propor caminhos viáveis, defender programas ou assumir os riscos de uma intervenção real na história.
O saber, dessa forma, deixa de ser um bem comum e se transforma em um espetáculo de conhecimento inalcançável e privativo. Em vez de instrumentalizar o público com ferramentas conceituais replicáveis para que compreenda e transforme de forma independente a própria realidade, essa postura gera uma relação de dependência afetiva e passividade intelectual. O ouvinte consome o pessimismo do mestre como um certificado de lucidez, mas sai da sala de mãos vazias. O oposto absoluto desse modelo autoritário e excludente seria uma pedagogia verdadeiramente democrática e generosa. Uma postura cuja influência se baseia na máxima clareza metodológica, na simplicidade nobre da partilha e na disposição transparente de ter as próprias ideias testadas, criticadas e superadas por qualquer pessoa.
(Disponível em: https://jornal.usp.br/?p=1024676 – texto adaptado especialmente para esta prova).
*hermetismo
2 p.ext. saber oculto, esotérico, reservado a poucos
3 p.ext. caráter daquilo que é difícil de compreender e/ou interpretar
(HERMETISMO. In: DICIONÁRIO HOUAISS. [S. l.]: UOL, [s. d.]. Disponível em: https://houaiss.uol.com.br/houaisson/apps/uol_www/vopen/html/inicio.php/4c9/hermetismo. Acesso em: 20 jun. 2026.)
Na frase “É o intelectual oracular, figura cativa de debates acadêmicos”, retirada do texto, caso o verbo “É” fosse flexionado no imperativo afirmativo e na terceira pessoa do singular, assumiria a forma:
- “Seja”.
- “Sê”.
- “Sede”.
- “Sejais”.
- “Sejas”.
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Gabarito
A
Comentário do professor
Imperativo afirmativo do verbo "ser": as formas das demais pessoas (exceto a 2.ª do singular) equivalem às do presente do subjuntivo. Essa é a regra normativa a que se recorre para formar o imperativo na 3.ª pessoa.
O presente do subjuntivo do verbo ser tem, entre outras, a forma "seja" para a 3.ª pessoa do singular. Por isso, ao transformar o verbo "É" em imperativo afirmativo nessa pessoa, a forma adequada é "seja".
Aplicando ao contexto: a frase original "É o intelectual oracular, figura cativa de debates acadêmicos" passa a "Seja o intelectual oracular, figura cativa de debates acadêmicos", preservando a terceira pessoa do singular do imperativo.
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