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Questão FC869736

Considere o texto a seguir para responder a questão Amigos para o bem e para o mal Vera Iaconelli – Psicanalista Costumamos dizer que é na hora do perrengue que se conhece um verda

Semântica

Instituto AOCP · 2026

Considere o texto a seguir para responder a questão

 

Amigos para o bem e para o mal

 

Vera Iaconelli – Psicanalista

 

Costumamos dizer que é na hora do perrengue que se conhece um verdadeiro amigo. Ele seria a pessoa que não larga nossa mão quando estamos por baixo. Concordo, desde que se leve em conta o outro lado: amigo suporta, igualmente, estar com a gente quando brilhamos. A amizade só se revela no intercâmbio de posições e em diferentes contextos.

 

Partimos da constatação freudiana de que não há relação isenta de ambivalência e que o amor e o ódio andam de mãos dadas. É através do amor que superamos nossa tendência a controlar ou destruir o outro por medo de que ele nos controle ou destrua antes. A paranoia diante da alteridade está sempre pronta a ser engatilhada; o amor a desarma.

 

Ele permite que a inveja dê lugar à admiração, sabendo que a primeira está sempre à espreita. Somos crianças egocêntricas que só aprendemos a dividir os brinquedos com prazer sob a condição de um insight: ser o dono da bola não é tão legal quanto ter alguém com quem jogar.

 

Inveja, ciúme, competição, raiva... as amizades vêm com a paleta completa de afetos humanos, acirrados pela proximidade, pelo convívio e pela longevidade das relações. O que as torna especiais é que nelas o cuidado, a empatia e a intimidade dão mais prazer do que nossa costumeira mesquinhez. Daí que ver o amigo brilhar, quando não consideramos nosso umbigo o centro do universo, pode ser fonte de um genuíno prazer.

 

Da mesma forma, vê-lo sofrer é dilacerante (e perdê-lo, impensável). A condição para ser um amigo digno do título é que o sadismo diante do sofrimento alheio não roube a cena. Reitero que não existe aqui nenhuma expectativa de que sejamos seres superiores, livres das limitações humanas, mas que o amadurecimento nos permite reconhecê-las, evitar que transbordem em atos danosos e, acima de tudo, desfrutar do prazer de amar e ser amado pelo outro.

 

O mesmo critério deveria servir para familiares, conhecidos e colegas. Mas estes têm que galgar muitos degraus para receber o especialíssimo título de amigo. A amizade é contingente e implica trocas íntimas e duradouras nas quais podemos nos fiar, quase sempre. Amigos também comem bola, mas ganham no saldo final e por insistência.

 

Nossos amigos não precisam ser as melhores pessoas do mundo. Basta que sejam as melhores pessoas do nosso mundo. Isso permite que mesmo os bizarros, os malas sem alça e os perdidos de plantão tenham direito a relações significativas na vida. (Considerando que todos somos um pouco bizarros, malas e perdidos, é bom que haja quem nos aguente.) [...] No fim das contas, amigo mesmo é aquele que sobrevive ao nosso lado na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, sem sadismo nem inveja demais, e com disponibilidade amorosa ao longo da vida.

 

Adaptado de: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/vera- iaconelli/2025/10/

amigos-para-o-bem-e-para-o-mal.shtml). Acesso em: 22 nov. 2025.

 

Nos excertos “Amigos também comem bola [...]” e “[...] os malas sem alça e os perdidos de plantão [...]”, a linguagem empregada

  1. apresenta nível de informalidade incoerente com o gênero textual em questão.
  2. está em desacordo com a norma-padrão.
  3. atribui um tom impessoal ao texto, o que gera efeito de distanciamento do leitor.
  4. veicula um sentido diferente do significado literal das palavras.
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Gabarito

D

Comentário do professor

Alternativa D: indica que os trechos apresentam sentido diferente do literal, isto é, uso conotativo ou figurado da linguagem. Em vez de significar aquilo que as palavras denotam, as expressões transmitem ideias associadas culturalmente.

No exemplo “Amigos também comem bola”, não se trata de ingestão; comer bola é uma locução idiomática que significa errar ou falhar. O sentido real é metafórico e depende do conhecimento compartilhado sobre a expressão.

Em “os malas sem alça” e “os perdidos de plantão” aparece linguagem coloquial e imagética: mala como pessoa incômoda e de plantão usada ironicamente para indicar habitualidade. Essas marcas reforçam o tom próximo e avaliativo do autor.

Portanto a alternativa está correta porque identifica corretamente o emprego de sentidos que vão além do significado literal das palavras.

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