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Questão FC869747

– Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quar

Semântica

DSEA UERJ · 2026

Considere o texto a seguir para responder a questão

 

TEXTO II

 

O ARQUIVO

 

No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.

 

João era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.

 

No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.

 

Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.

 

Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.

 

O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.

 

Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.

 

Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.

 

Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.

 

Prosseguiu a luta.

 

Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.

 

João preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.

 

Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.

 

Respirou descompassado.

 

– Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.

 

João baixou a cabeça em sinal de modéstia.

 

– Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.

 

O coração parava.

 

– Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.

 

A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.

 

– De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?

 

Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.

 

Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.

 

Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduziu-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão. 

 

Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência.

 

A vida foi passando, com novos prêmios.

 

Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.

 

O corpo era um monte de rugas sorridentes.

 

Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho.

 

Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:

 

– Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.

 

O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:

 

– Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.

 

O chefe não compreendeu:

 

– Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?

 

A emoção impediu qualquer resposta.

 

João afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.

 

João transformou-se num arquivo de metal.

 

VICTOR GIUDICE (1972) Em: MORICONI, Ítalo (org.). Os cem

melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

 

A noção semântica de propósito está expressa por meio de um verbo em:

  1. Não se mostrou orgulhoso,
  2. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.
  3. O organismo acomodara-se à fome.
  4. Mas desejo requerer minha aposentadoria.
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Gabarito

D

Comentário do professor

A frase Mas desejo requerer minha aposentadoria. expressa claramente a noção semântica de propósito.

O verbo desejar, aqui conjugado como desejo, sinaliza a vontade do sujeito de promover uma ação futura.

A construção desejo + infinitivo (requerer) indica que o infinitivo nomeia a ação pretendida, enquanto o verbo principal afirma a intenção dirigida a essa ação.

Trata-se de modalidade volitiva: o locutor manifesta uma decisão deliberada e programada, não uma mera descrição de estado.

No contexto do conto, a oração funciona como um ato de fala performativo, em que João declara e pretende efetivar o pedido de aposentadoria.

O uso do presente desejo reforça a atualidade e a determinação da intenção.

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