FC ConcursosFC Concursos

Questão FC869816

O espetáculo do hermetismo*: a retórica oracular contra a generosidade intelectual Por Marco Aurélio Werle Há um modelo contemporâneo de pensador público cuja autoridade não se con

Sintaxe

FUNDATEC · 2026

O espetáculo do hermetismo*: a retórica oracular contra a generosidade intelectual

 

Por Marco Aurélio Werle  

 

Há um modelo contemporâneo de pensador público cuja autoridade não se constrói pela capacidade de iluminar, mas pelo poder de encantar através da opacidade. É o intelectual oracular, figura cativa de debates acadêmicos e mesas-redondas, cujo ensaísmo opera prioritariamente por meio de um labirinto retórico sedutor.

 

Em suas exposições, a linearidade tradicional — com começo, meio e fim — é deliberadamente sacrificada. O discurso flui por livre associação de ideias, costurando de forma vertiginosa fragmentos de notícias cotidianas, erudição histórica e saltos temporais bruscos. Essa colagem textual cumpre uma função psicológica precisa: gerar no espectador uma forte e imediata sensação de urgência, desamparo e catástrofe iminente.

 

O ganho estético e performático dessa abordagem, porém, cobra um preço altíssimo na clareza. Ao término da exposição, salvo se o ouvinte tentar colocar no papel a cadeia lógica de causas e efeitos para reconstruir o argumento passo a passo, perceberá que a estrutura conceitual se dissolveu em fumaça. A fala funciona mais como um transe afetivo do que como transmissão de conhecimento estruturado. Produz-se um efeito de profundidade pelo excesso de conexões herméticas e hipercomplexas. Essa blindagem retórica não é inocente; ela protege a argumentação contra qualquer contestação factual ou empírica, afinal, torna-se virtualmente impossível refutar teses que se recusam terminantemente a se fixar em hipóteses nítidas. Para sustentar esse diagnóstico de colapso permanente e paralisia social, esse tipo de análise recorre à personificação de grandes abstrações econômicas e sociais. Conceitos macroestruturais e sistêmicos — como “o Capital”, “o Mercado” ou “o Estado” — deixam de ser entendidos como processos dinâmicos movidos por conflitos de classe e agências humanas concretas. Passam a ser tratados como sujeitos autônomos e conscientes, dotados de vontade própria, intenções malévolas deliberadas e estratégias ocultas de dominação. Esse movimento teórico resvala em um determinismo absoluto e conspiratório que apaga as contradições internas das elites e as contingências imprevisíveis do cotidiano. Paralelamente, esse olhar alimenta o mito de uma excepcionalidade trágica local, tratando a realidade como uma “singularidade maldita”, uma anomalia isolada do resto do planeta. Ao fechar os olhos para comparações, prefere-se o isolamento do “caso único” à evidência de que os mesmos fenômenos de precarização ocorrem de forma semelhante em outros locais.

 

Por fim, esse posicionamento crítico se protege atrás de uma ironia constante e de um falso despojamento. O deboche soberbo direcionado às ilusões do progresso, às tentativas de reforma institucional e à ingenuidade de quem ainda tenta agir politicamente cria um escudo de imunidade total para quem fala. Instalado na chave do sarcasmo intransigente, o observador se coloca acima do erro e da prática, desobrigando-se inteiramente de propor caminhos viáveis, defender programas ou assumir os riscos de uma intervenção real na história.

 

O saber, dessa forma, deixa de ser um bem comum e se transforma em um espetáculo de conhecimento inalcançável e privativo. Em vez de instrumentalizar o público com ferramentas conceituais replicáveis para que compreenda e transforme de forma independente a própria realidade, essa postura gera uma relação de dependência afetiva e passividade intelectual. O ouvinte consome o pessimismo do mestre como um certificado de lucidez, mas sai da sala de mãos vazias. O oposto absoluto desse modelo autoritário e excludente seria uma pedagogia verdadeiramente democrática e generosa. Uma postura cuja influência se baseia na máxima clareza metodológica, na simplicidade nobre da partilha e na disposição transparente de ter as próprias ideias testadas, criticadas e superadas por qualquer pessoa.

 

(Disponível em: https://jornal.usp.br/?p=1024676 – texto adaptado especialmente para esta prova).

 

*hermetismo

2 p.ext. saber oculto, esotérico, reservado a poucos

3 p.ext. caráter daquilo que é difícil de compreender e/ou interpretar

 

(HERMETISMO. In: DICIONÁRIO HOUAISS. [S. l.]: UOL, [s. d.]. Disponível em: https://houaiss.uol.com.br/houaisson/apps/uol_www/vopen/html/inicio.php/4c9/hermetismo. Acesso em: 20 jun. 2026.)

 

Para responder à questão, considere o seguinte fragmento, retirado do texto:

 

“Esse movimento teórico resvala em um determinismo absoluto e conspiratório que apaga as contradições internas das elites e as contingências imprevisíveis do cotidiano”.

 

No fragmento supracitado, o vocábulo “que” classifica-se como _____________ e exerce a função de _____________ da oração que introduz.

 

Assinale a alternativa que preenche, correta e respectivamente, as lacunas do trecho acima.

  1. pronome relativo – predicado
  2. pronome relativo – sujeito
  3. conjunção integrante – predicado
  4. conjunção integrante – objeto direto
  5. conjunção subordinativa – sujeito
Mostrar resposta e comentário

Gabarito

B

Comentário do professor

O vocábulo "que" retoma o antecedente "determinismo absoluto e conspiratório" e pode ser substituído por "o qual" sem alteração de sentido: "o qual apaga as contradições...". Essa possibilidade de retomada demonstra que se trata de um pronome relativo, palavra que introduz a oração subordinada adjetiva e conecta-a ao termo antecedente.

Na oração "que apaga as contradições internas...", o termo "apaga" é o predicado verbal e "as contradições internas" funciona como objeto direto. O "que" exerce a ação verbal, isto é, pratica o verbo; portanto, sua função sintática é a de sujeito da oração relativa.

Resumo: "que" = pronome relativo; função na oração relativa = sujeito.

Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em

Continue aprendendo