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Questão FC869873

Considere o texto a seguir para responder a questão Falar errado é uma arte, Arnesto! No dia 6 de agosto de 1910, Emma Riccini Rubinato pariu um garoto sapeca em Valinhos e deu a e

Linguagem

IDIB · 2026

Considere o texto a seguir para responder a questão

 

Falar errado é uma arte, Arnesto!

 

No dia 6 de agosto de 1910, Emma Riccini Rubinato pariu um garoto sapeca em Valinhos e deu a ele o nome de João Rubinato. Na escola, João não passou do terceiro ano. Não era a área dele, tinha de escolher outra. Fez o que apareceu. Foi ser garçom, metalúrgico, até virar radialista, comediante, ator de cinema e TV, cantor e compositor. De samba.

 

Como tinha sobrenome italiano, João resolveu mudar para emplacar seu samba. E como ia mudar o sobrenome, mudou o nome. Virou Adoniran Barbosa. O cara falava errado, voz rouca, pinta de malandro da roça. Virou ícone da música brasileira, o mais paulista de todos, falando errado e irritando Vinicius de Moraes, que ficou de bico fechado depois de ouvir a música que Adoniran fez para a letra Bom dia, tristeza, de autoria do Poetinha. Coisa de arrepiar.

 

Para toda essa gente que implicava, Adoniran tinha uma resposta neoerudita: “Gosto de samba e não foi fácil, pra mim, ser aceito como compositor, porque ninguém queria nada com as minhas letras que falavam ‘nóis vai’, ‘nóis fumo’, ‘nóis fizemo’, ‘nóis peguemo’. Acontece que é preciso saber falar errado. Falar errado é uma arte, senão vira deboche”.

 

Ele sabia o que fazia. Por isso dizia que falar errado era uma arte. A sua arte. Escolhida a dedo porque casava com seu tipo. O Samba do Arnesto é um monumento à fala errada, assim como Tiro ao Álvaro. O erudito podia resmungar, mas o povo se identificava.

 

PEREIRA, E. Disponível em: www.tribunapr.com.br. Acesso em: 8 jul. 2024 (adaptado).

 

Por meio da intencionalidade discursiva do autor, o texto em evidência:

  1. Valoriza a variação linguística popular como expressão artística legítima, utilizando a trajetória de Adoniran Barbosa para defender que o chamado “falar errado” pode ser um recurso estético consciente, embora tratado por muitos como inadequado.
  2. Quando cita expressões como “nóis vai”, “nóis fumo”, “nóis fizemo”, evidencia marcas da fala popular paulistana. No entanto, a frase “é preciso saber falar errado” revela, por parte do compositor, desconhecimento da necessidade da norma e de seu uso contextual.
  3. Destaca a pouca escolaridade de Adoniran Barbosa ao apresentar sua origem humilde. Assim, o texto não o diminui; ao contrário, mostra que sua linguagem coloquial era parte constitutiva de sua identidade artística. Entretanto, salienta a ideia de que apenas a norma-padrão produz arte de qualidade.
  4. Deixa claro que o uso da linguagem popular foi uma decisão estética incoerente com o personagem e com o contexto social retratado nos sambas de Adoniran Barbosa, uma vez que as letras de canção são gêneros discursivos que não absorvem o caráter heterogêneo da língua.
  5. Ao mencionar a irritação de Vinicius de Moraes, contrapõe o universo erudito ao popular. Portanto, há uma crítica implícita à visão elitista da língua, que desqualifica formas não padronizadas. Ou seja, mesmo músicas como “Samba do Arnesto” e “Tiro ao Álvaro” tendo se popularizado e feito sucesso, não há legitimidade e aceitação nas variantes estigmatizadas da língua.
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Gabarito

A

Comentário do professor

O enunciado defende, de forma clara, a valorização da variação linguística popular como expressão artística legítima. Ao recuperar a trajetória de Adoniran Barbosa, o autor mostra que o chamado “falar errado” foi uma opção estética consciente, adequada ao estilo e ao universo social do compositor.

Ao citar a própria declaração de Adoniran, “Falar errado é uma arte”, e ao relacioná‑la com sucessos como O Samba do Arnesto, o texto realiza uma estratégia de exemplificação e legitimação: transforma uma prática estigmatizada em recurso poético e identitário.

Assim, a intenção discursiva é defender que o uso popular da língua pode ser um recurso estético deliberado e digno de apreço, mesmo quando criticado por setores eruditos.

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