Questão FC890119
Os profetas secretos (José Eduardo Agualusa) O que menos aprecio nesta época do ano — os maus profetas. O que mais aprecio — os bons profetas. Abomino os profetas profissionais — a
Morfologia
IBFC · 2026
Os profetas secretos (José Eduardo Agualusa)
O que menos aprecio nesta época do ano — os maus profetas. O que mais aprecio — os bons profetas. Abomino os profetas profissionais — astrólogos, tarólogos, e certos analistas políticos — que fingem olhar para o futuro, ignorando que as profecias autênticas, aquelas que se confirmam, resultam de um exercício sistemático de atenção ao presente.
Os verdadeiros profetas não olham para o futuro — a mais respeitada e esquiva das superstições! Olham, sim, para aquilo que os rodeia. Escutam os movimentos subterrâneos. Analisam e interpretam os sinais do tempo em que estão mergulhados. O futuro emerge então como consequência lógica — ou poética — de um presente esticado até ao limite.
George Orwell, por exemplo, não sonhou com o Grande Irmão. Não foram as cartas, nem os astros, que lhe permitiram adivinhar a emergência de regimes totalitários, capazes de vigiar o dia a dia dos seus cidadãos através de tecnologias sofisticadas. Orwell imaginou o aprofundamento de métodos de vigilância, de propaganda e do uso da linguagem como instrumento de poder, que já existiam no seu tempo.
“Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, não é um romance sobre a queima de livros, mas sobre uma sociedade anestesiada por projetos de entretenimento cuidadosamente imbecilizantes — aquilo a que chamamos, num eufemismo elegante, cultura de massas.
Bradbury compreendeu que não seriam necessárias fogueiras para destruir os livros. Bastaria torná-los desnecessários, fazendo com que as pessoas trocassem a leitura por estímulos incessantes, rápidos e superficiais. O autor testemunhou o tédio se alastrando, viu a superficialidade ocupando todos os espaços, e escreveu a partir desses indícios.
Orwell e Bradbury foram grandes profetas — assim como Júlio Verne, Aldous Huxley, Philip K. Dick e mais uma dúzia de outros gigantes da literatura universal — porque, ao contrário de tantos falsos quiromantes, souberam olhar e escutar o presente.
Os bons profetas do nosso tempo não reivindicam nenhum dom de clarividência. Pelo contrário. Desconfiam das certezas. Encontramo-los entre escritores que interrogam as correntes obscuras do inconsciente coletivo, como a romancista canadense Margaret Atwood, com as suas visões distópicas, como no excelente “O conto da aia”. Encontramo-los também entre algumas figuras da ciência, como o físico italiano Carlo Rovelli, que há vários anos se esforça por nos mostrar o meticuloso logro do tempo.
Nenhum destes profetas contemporâneos promete salvação. Nenhum oferece calendários. Limitam-se a mostrar que o presente é mais estranho, mais frágil — e mais exigente — do que aquilo que gostamos de admitir.
Os maus profetas anunciam futuros confortáveis; os outros tornam o presente desconfortável. Os maus tranquilizam; os bons inquietam. No fim, volto ao início: o que menos aprecio nesta época do ano são os maus profetas, tão seguros de si e com tantos seguidores nas redes sociais. O que mais aprecio — os bons profetas, quase sempre discretos, atentos, solitários. Aqueles que não olham para o futuro, mas para aquilo que está ocorrendo agora, e nos forçam, por isso mesmo, a abrir os olhos. A mantê-los abertos.
(Disponível: https://oglobo.globo.com/cultura/jose-eduardo agualusa/coluna/2026/01/os-profetas-secretos.ghtml. Acesso em 01/02/2026)
A colocação do pronome oblíquo, em “Encontramo-los entre escritores” , ilustra o nível de linguagem que se destaca no texto. Assinale a alternativa que explica, adequadamente, a grafia apresentada nesse emprego.
- A mesóclise de um verbo flexionado na primeira pessoa do plural exige a transformação do “os” em “los”.
- O pronome enclítico, em uma construção verbal terminada em “-s”, assume a forma “lo(s)/la(s)” e perde a terminação “-s”.
- Na forma verbal em análise, ocorre a combinação de dois pronomes oblíquos “me” e “os” em funções sintáticas distintas.
- A ênclise do pronome “lhe” em verbos flexionados na primeira pessoa do plural resulta na forma “los”.
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Gabarito
B
Comentário do professor
Pronome enclítico é o pronome oblíquo átono ligado ao verbo. Quando esse verbo termina em -s, o pronome assume a forma lo(s)/la(s) e o verbo perde a terminação '-s', formando uma única palavra.
Operação morfológica: verbo (sem o -s final) + lo(s)/la(s). Exemplo: "Encontramos os escritores" → "Encontramo-los". Outro exemplo: "Cantamos os hinos" → "Cantamo-los".
Essa forma responde a critérios de eufonia e à norma culta, ocorrendo com maior frequência em registros literários e formais, como no texto citado.
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