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Questão FC890140

Leia o texto a seguir, extraído do monólogo “O céu da Língua”, de Gregório Duvivier: Minha filha fala “papato”. E eu sei que em algum momento ela vai deixar de falar papato. Sem me

Semântica

FGV · 2026

Leia o texto a seguir, extraído do monólogo “O céu da Língua”, de Gregório Duvivier:

 

Minha filha fala “papato”. E eu sei que em algum momento ela vai deixar de falar papato. Sem me avisar, ela vai passar a falar sapato. E é um caminho sem volta. Tenho vontade de combinar com todo o mundo à volta dela, com a mãe, e as avós, e a escola, de ninguém nunca falar a palavra Sapato perto dela. Sim, eu queria fazer um cordão sanitário pra palavra papato. Mas logo eu lembro que não é fácil a vida da mulher de quarenta anos que fala “papato”. Então eu digo pra minha filha, com o coração apertado: “bota o sapato. É sapato”. Mesmo sabendo que eu to matando uma coisa preciosa dentro dela.

 

DUVIVIER, Gregório. O céu da Língua. Rio de Janeiro, Paddock, 2025, p. 9.

 

Considerando o contexto, assinale a afirmativa que interpreta corretamente o sentido da expressão “cordão sanitário” no texto. 

  1. É empregada para indicar a tentativa de controlar o ambiente linguístico da criança, de modo a interferir em seu processo de aprendizagem.
  2. Funciona como metáfora para o desejo de proteger a forma infantil da palavra, evitando que ela seja “contaminada” pela forma convencional.
  3. Sugere a intenção de isolar temporariamente a palavra “papato”, preservando-a como marca afetiva daquele momento da infância.
  4. Expressa a consciência de que o desenvolvimento da linguagem implica substituir certas formas por outras socialmente aceitas.
  5. Revela o conflito entre o afeto do pai pela fala da filha e a necessidade de inseri-la, o quanto antes, nas convenções da língua.
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Gabarito

B

Comentário do professor

Na expressão “cordão sanitário” o autor usa uma imagem emprestada da saúde pública para criar uma metáfora linguística.

Quer dizer que ele deseja isolar a forma infantil “papato” de qualquer contato com a forma correta “sapato”, como se esta pudesse contaminar e apagar a palavra afetiva.

O gesto imaginado envolve combinar com familiares e a escola que ninguém diga a norma perto da menina, protegendo a pronúncia querida por um tempo.

Assim, a expressão indica um desejo de preservação afetiva da infância, expresso por meio de uma imagem de isolamento, e não um uso literal do termo.

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