Questão FC890190
É importante saber o nome das coisas. Ou, pelo menos, saber comunicar o que você quer. Imagine-se entrando numa loja para comprar um… um… como é mesmo o nome?
Linguagem
Instituto Consulplan · 2026
Texto para responder à questão.
Comunicação
É importante saber o nome das coisas. Ou, pelo menos, saber comunicar o que você quer. Imagine-se entrando numa loja para comprar um… um… como é mesmo o nome?
“Posso ajudá-lo, cavalheiro?”
“Pode. Eu quero um daqueles, daqueles…”
“Pois não?”
“Um… como é mesmo o nome?”
“Sim?”
“Pomba! Um… um… Que cabeça a minha. A palavra me escapou por completo. É uma coisa simples, conhecidíssima.”
“Sim, senhor.”
“O senhor vai dar risada quando souber.”
“Sim, senhor.”
“Olha, é pontuda, certo?”
“O quê, cavalheiro?”
“Isso que eu quero. Tem uma ponta assim, entende? Depois vem assim, assim, faz uma volta, aí vem reto de novo, e na outra ponta tem uma espécie de encaixe, entende? Na ponta tem outra volta, só que esta é mais fechada. E tem um, um… Uma espécie de, como é que se diz? De sulco. Um sulco onde encaixa a outra ponta; a pontuda, de sorte que o, a, o negócio, entende, fica fechado. É isso. Uma coisa pontuda que fecha. Entende?”
[...]
“Não! Escuta aqui. Vamos tentar de novo…”
“Tentemos por outro lado. Para o que serve?”
“Serve assim para prender. Entende? Uma coisa pontuda que prende. Você enfia a ponta pontuda por aqui, encaixa a ponta no sulco e prende as duas partes de uma coisa.”
“Certo. Esse instrumento que o senhor procura funciona mais ou menos como um gigantesco alfinete de segurança e…”
“Mas é isso! É isso! Um alfinete de segurança!”
“Mas do jeito que o senhor descrevia parecia uma coisa enorme, cavalheiro!”
“É que eu sou meio expansivo. Me vê aí um… um… como é mesmo o nome?”
(VERISSIMO, Luis Fernando. Comunicação. Amor brasileiro. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1977. p. 143-145. Fragmento.)
De acordo com a narrativa apresentada, pode-se compreender que:
- Há necessidade de que a expressão linguística esteja adequada de acordo com a norma-padrão da língua nos diálogos apresentados.
- Ocorre o estabelecimento de uma crítica aos interlocutores por não demonstrarem consciência da relevância do diálogo no processo de comunicação.
- Mediante a dificuldade de compreensão da solicitação pretendida por um dos personagens, o diálogo é desenvolvido a partir de estratégias discursivas diferenciadas.
- O fato de haver comprometimento do significado linguístico de alguns termos durante o processo de comunicação estabelecido pelos personagens, permite outras possibilidades substitutivas de significado para que o objetivo comunicacional seja alcançado.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Mediante a dificuldade de nomear o objeto, o diálogo avança por estratégias discursivas distintas até a compreensão.
O personagem recorre à descrição morfológica (palavras como pontuda, sulco, voltas, pontas), detalhando partes quando o nome falha.
O interlocutor solicita reformulação e faz perguntas esclarecedoras, o que leva à descrição funcional (para que serve: prender), deslocando o foco do signo para o uso.
Há também analogia e hipótese interpretativa por parte do atendente (gigantesco alfinete de segurança), que orienta o reconhecimento.
Essas estratégias combinadas mostram uma negociação semântica e pragmática: o sentido é construído interativamente até que ocorra a nomeação correta.
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