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Questão FC114904

O papel fundante da memória dos mortos para o desenvolvimento da cultura teve algo de acidental, pois o mecanismo poderoso de propagação dos hábitos, das ideias e dos comportamento

Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)

CEBRASPE (CESPE) · 2023

O papel fundante da memória dos mortos para o desenvolvimento da cultura teve algo de acidental, pois o mecanismo poderoso de propagação dos hábitos, das ideias e dos comportamentos dos ancestrais foi o afeto. A lembrança de quem partiu, bem visível nos chimpanzés, que se enlutam quando perdem um ente querido, tornou-se uma marca indelével de nossa espécie. Isso não aconteceu sem contradições, é claro. Com o amor pelos mortos surgiu também o medo deles. Do Egito a Papua-Nova Guiné, em distintos momentos e lugares, floresceram rituais para neutralizar, apaziguar e satisfazer aos espíritos desencarnados. Na Inglaterra medieval, temiam-se tanto os mortos que cadáveres eram mutilados e queimados para se garantir sua permanência nas covas. Entre os Yanomami, a queima dos pertences é uma parte essencial dos rituais fúnebres. A Igreja Católica até hoje considera que os restos mortais dos santos são valiosas relíquias religiosas.

A propagação dos memes de entidades espirituais foi, portanto, impulsionada pelos afetos positivos e negativos em relação aos mortos. Foi a memória das técnicas e dos conhecimentos carregados pelos avós e pais falecidos que transformou esse processo em algo adaptativo, um verdadeiro círculo virtuoso simbólico. Não é exagero dizer que o motor essencial da nossa explosão cultural foi a saudade dos mortos. A crença na autoridade divina para orientar decisões humanas levou a um acúmulo acelerado de conhecimentos empíricos sobre o mundo, sob a forma de preceitos, mitos, dogmas, rituais e práticas. Ainda que apoiada em coincidências e superstições de todo tipo, essa crença foi o embrião de nossa racionalidade. Causas e efeitos foram sendo aprendidos pela corroboração ou não da eficácia dos símbolos religiosos.

Sidarta Ribeiro. O oráculo da noite: a história da ciência e do sonho. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 325 (com adaptações).

A respeito das ideias, dos sentidos e dos aspectos linguísticos do texto precedente, julgue o item que se segue.

O segmento “Com o amor pelos mortos” (quarto período do primeiro parágrafo) exprime uma causa.
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

"Com o amor pelos mortos" foi julgado ERRADO porque nesse contexto a locução não introduz uma relação de causa, mas de concomitância ou simultaneidade.

Embora a preposição "com" possa, em outros trechos, indicar causa, aqui ela estabelece que duas ocorrências surgiram juntas: o amor pelos mortos e o medo deles apareceram ao mesmo tempo, não uma como resultado direto da outra.

Um teste prático ajuda: se trocarmos por "porque" ou "por causa do amor pelos mortos", a frase muda de sentido e fica incoerente com o contexto; já substituir por "ao passo que" ou "ao mesmo tempo que" mantém o sentido original de ocorrência simultânea.

Portanto, a interpretação correta é de concomitância, não de causalidade.

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