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Questão FC114924

O papel fundante da memória dos mortos para o desenvolvimento da cultura teve algo de acidental, pois o mecanismo poderoso de propagação dos hábitos, das ideias e dos comportamento

Interpretação de Textos (Compreensão)

CEBRASPE (CESPE) · 2023

O papel fundante da memória dos mortos para o desenvolvimento da cultura teve algo de acidental, pois o mecanismo poderoso de propagação dos hábitos, das ideias e dos comportamentos dos ancestrais foi o afeto. A lembrança de quem partiu, bem visível nos chimpanzés, que se enlutam quando perdem um ente querido, tornou-se uma marca indelével de nossa espécie. Isso não aconteceu sem contradições, é claro. Com o amor pelos mortos surgiu também o medo deles. Do Egito a Papua-Nova Guiné, em distintos momentos e lugares, floresceram rituais para neutralizar, apaziguar e satisfazer aos espíritos desencarnados. Na Inglaterra medieval, temiam-se tanto os mortos que cadáveres eram mutilados e queimados para se garantir sua permanência nas covas. Entre os Yanomami, a queima dos pertences é uma parte essencial dos rituais fúnebres. A Igreja Católica até hoje considera que os restos mortais dos santos são valiosas relíquias religiosas.

A propagação dos memes de entidades espirituais foi, portanto, impulsionada pelos afetos positivos e negativos em relação aos mortos. Foi a memória das técnicas e dos conhecimentos carregados pelos avós e pais falecidos que transformou esse processo em algo adaptativo, um verdadeiro círculo virtuoso simbólico. Não é exagero dizer que o motor essencial da nossa explosão cultural foi a saudade dos mortos. A crença na autoridade divina para orientar decisões humanas levou a um acúmulo acelerado de conhecimentos empíricos sobre o mundo, sob a forma de preceitos, mitos, dogmas, rituais e práticas. Ainda que apoiada em coincidências e superstições de todo tipo, essa crença foi o embrião de nossa racionalidade. Causas e efeitos foram sendo aprendidos pela corroboração ou não da eficácia dos símbolos religiosos.

Sidarta Ribeiro. O oráculo da noite: a história da ciência e do sonho. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 325 (com adaptações).

A respeito das ideias, dos sentidos e dos aspectos linguísticos do texto precedente, julgue o item que se segue.

No texto, o autor defende que o pensamento racional e o pensamento religioso estiveram relacionados.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Análise do texto: O autor do texto estabelece uma conexão intrigante entre memória, afeto, e a evolução da cultura humana. Logo de início, ele enfatiza que a forma como nos lembramos dos mortos e o afeto que nutrimos por eles têm raízes profundas na formação de nossos comportamentos culturais. Essa essência se desdobra ao longo do texto, onde são apresentadas variadas práticas e rituais vinculados à figura dos que já partiram, refletindo o papel preponderante que essas emoções desempenham em nossa sociedade.

Na sequência, uma afirmação crucial surge: a crença na autoridade divina e sua capacidade de orientar nossas decisões é apresentada como um motor para o acúmulo de conhecimento humano. O autor sugere que, através da interação entre práticas religiosas e observações do mundo, é possível traçar um caminho que leva ao desenvolvimento do pensamento racional. Embora esta crença se baseie muitas vezes em coincidências e superstições, ela é apontada como o alicerce sobre o qual a racionalidade se edifica, ou seja, o pensamento religioso e o racional estão indissociavelmente ligados. Portanto, a proposição de que "o pensamento racional e o pensamento religioso estiveram relacionados" está CERTA, pois o autor revela como a fé e os rituais construíram não apenas a cultura, mas também uma base para o raciocínio lógico que se desenvolveu ao longo do tempo.

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