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Questão FC115008

Quem comporá a Apassionata do nosso tempo, quem removerá as cinzas, despertará a brasa quem reinventará o amor, as penas de amor, quem sacudirá os homens do seu torpor?

Interpretação de Textos (Compreensão)

CEBRASPE (CESPE) · 2023

Internet: <enfoque.multimedia.com/>.

Beethoven

Meu caro Luís, que vens fazer nesta hora
de antimúsica pelo mundo afora?

Patética, heroica, pastoral ou trágica,
tua voz é sempre um grito modulado,
um caminho lunar conduzindo à alegria.
Ao não-rumor tiraste a percepção mais íntima
do coração da Terra, que era o teu
Urso-maior uivando a solidão
aberta em cântico (...)

Nós, os surdos, não captamos
o amor doado em sinfonia, a paz
em allegro enérgico sobre o caos,
que nos ofertas do fundo
do teu mundo clausurado.
Nós, computadores, não programamos
a exaltação romântica filtrada
em sonatino adágio murmurante.


Nós, guerreiros nucleares, não isolamos
o núcleo de paixão de onde se espraia
pela praia infinita essa abstrata
superação do tempo e do destino
que é razão de viver, razão florente
e grave.

Tanto mais liberto quanto mais
em tua concha não acústica cerrado
livre da corte da contingência, do barroco,
erguendo o sentimento à culminância
da divina explosão, que purifica
o resíduo mortal, a angústia mísera,
que vens fazer, do longe de dois séculos,
escuro Luís, Luís luminoso
em nosso tempo de compromisso e omisso?

Do fogo em que te queimaste,
Uma faísca resta para incendiar
corações maconhados, sonolentos,
servos da alienação e da aparência?

Quem comporá a Apassionata do nosso tempo,
quem removerá as cinzas, despertará a brasa
quem reinventará o amor, as penas de amor,
quem sacudirá os homens do seu torpor?

Boto no pickup o teu mar de música,
Nele me afogo acima das estrelas.

Carlos Drummond de Andrade. Beethoven. In: Carlos Drummond de Andrade. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1983 (com adaptações).

Vocabulário:
Luís: tradução de Ludwig, primeiro nome de Beethoven, para o português. Patética, heroica, pastoral: referência aos títulos de três composições Beethoven: “Sonata N.º 8” ou “Sonata Patética”, de 1799; “Sinfonia N.º 3” ou “Heroica”, de 1803; “Sinfonia N.º 6” ou “Pastoral”, de 1808.

caminho lunar: referência à célebre “Sonata ao Luar” ou “Sonata N.º 14”, composta por Beethoven em 1801.

não-rumor: sem ruído; silêncio.

Urso-maior: grande e famosa constelação do hemisfério celestial norte.

allegro: significa alegre, em italiano, e dá nome a um andamento musical leve e ligeiro nas composições clássicas.

clausurado: fechado; encerrado; isolado; distante da convivência social.

sonatino: sonata breve e ligeira.

adágio: trecho musical de andamento vagaroso no interior de uma composição clássica com vários movimentos, de caráter e andamento diversos, mas relacionados tonalmente.

espraia: estende-se pelas praias ou margens; derrama-se; espalha-se, irradia-se.

florente: florescente; brilhante; favorável; exitosa.

grave: séria; nobre; solene.

cerrado: fechado.

livre da corte da contingência: livre da sedução das circunstâncias.

Apassionata: em português, “Apaixonada”; título da “Sonata N.º 23”, composição musical de Beethoven para piano, composta em 1806.

pickup: vitrola ou radiola antiga em que se tocavam discos.

A partir do poema precedente, escrito por Carlos Drummond de Andrade, em 1973, para o compositor Ludwig van Beethoven (1770-1827), que, mesmo tendo se tornado surdo em função de uma enfermidade degenerativa aos 26 anos de idade, continuou compondo peças musicais até a sua morte, julgue o item seguinte.

Em “Nós, os surdos”, a surdez que o eu lírico atribui, não a Beethoven, mas a si mesmo e a seus contemporâneos está em consonância poética com a imagem constante da primeira estrofe do poema.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Comentário: No poema, o eu lírico se autodenomina "surdo", e essa escolha de palavras carrega um significado poderoso e simbólico. Essa surdez não se refere apenas à falta de audição literal, mas representa a incapacidade de captar as sutilezas e a beleza da música de Beethoven, que reflete um diálogo com o passado que muitos contemporâneos não conseguem ouvir.
Ao afirmar que é "surdo", o eu lírico critica a alienação da sociedade moderna em relação à arte verdadeira, alinhando-se com a primeira estrofe, onde se menciona "antimúsica", evidenciando que vivemos em um tempo em que a profundidade e a emoção na música são frequentemente ignoradas.
Dessa forma, a tensão entre a rica tradição musical de Beethoven e a "música" contemporânea é estabelecida, mostrando como a apreciação estética diminuiu. Assim, a surdez do eu lírico e de seus pares é uma metáfora que ecoa a insensibilidade da época, reforçando a ideia de que, embora a música de Beethoven permaneça vibrante, muitos se tornam incapazes de reconhecê-la.
Portanto, a afirmação está correta, pois essa crítica e essa identificação da surdez simbólica criam uma conexão profunda com a insensibilidade mencionada na primeira estrofe.

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