Questão FC115263
Texto CG3A1-I Antes de mais nada, há a liberdade suspensiva oferecida pela caminhada, mesmo que seja um simples passeio: livrar-se da carga das preocupações, esquecer por algum tem
Regência
CEBRASPE (CESPE) · 2022
Antes de mais nada, há a liberdade suspensiva oferecida pela caminhada, mesmo que seja um simples passeio: livrar-se da carga das preocupações, esquecer por algum tempo os afazeres. Optamos por não levar o escritório conosco: saímos, flanamos, pensamos em outras coisas. Com as excursões de vários dias, acentua-se o movimento de desapego: escapamos das obrigações do trabalho, libertamo-nos do jugo dos hábitos. Mas em que aspecto caminhar nos faria sentir essa liberdade mais do que numa longa viagem? Afinal, surgem outras limitações não menos penosas: o peso da mochila, a duração das etapas, a incerteza do tempo (ameaças de chuva ou de tempestade, calor sufocante), a rusticidade dos albergues, algumas dores... Mas só a caminhada consegue nos libertar das ilusões do indispensável. Como tal, ela permanece o reino de poderosas necessidades. Para chegar a determinada etapa, é preciso caminhar tantas horas, que correspondem a tantos passos; a improvisação é limitada, pois não estamos percorrendo caminhos de jardim e não podemos nos enganar nos entroncamentos, sob pena de pagar um preço muito alto. Quando a neblina invade a montanha ou uma chuva torrencial começa a cair, é preciso seguir, continuar. A comida e a água são objeto de cálculos precisos, em função do percurso e dos mananciais. Sem falar no desconforto. Ora, o milagre não é ficarmos felizes apesar disso, mas graças a isso. Quero dizer que não dispor de múltiplas opções de comida ou de bebida, estar submetido à grande fatalidade das condições climáticas, contar somente com a regularidade do próprio passo, tudo isso faz, de pronto, que a profusão da oferta (de mercadorias, de transportes, de conexões) e a multiplicação das facilidades (de comunicar, de comprar, de circular) nos pareçam outras tantas formas de dependência. Todas essas microlibertações não passam de acelerações do sistema, que me aprisiona com mais força. Tudo o que me liberta do tempo e do espaço me afasta da velocidade.
Na oração “ela permanece o reino de poderosas necessidades” (sétimo período), o termo “o reino” poderia ser substituído por no reino, sem prejuízo dos sentidos e da correção gramatical do texto, pois o verbo permanecer admite também complemento preposicionado.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
A afirmação é errada porque a substituição altera o sentido do período, não apenas a forma.
No original, em "ela permanece o reino de poderosas necessidades", o sintagma o reino... funciona como predicativo do sujeito e permanecer atua como verbo de ligação, ou seja, indica que a caminhada continua a ser caracterizada por esse reino de necessidades.
Ao inserir a preposição, em "ela permanece no reino de poderosas necessidades", o verbo passa a admitir um complemento preposicionado (objeto indireto/adjunto), com sentido de permanecer localizado ou ficar dentro de algo. Há, portanto, mudança semântica: não se afirma mais uma característica permanente, mas uma situação de estar em um lugar ou condição.
Por isso, embora gramaticalmente possível, a substituição prejudica o sentido original do texto.
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