Questão FC115370
Ora, graças a Deus, lá se foi mais um. Um ano, quero dizer. Menos um na conta, mais uma prestação paga. E tem quem fique melancólico. Tem quem deteste ver à porta a cara do mascate
Interpretação de Textos (Compreensão)
CEBRASPE (CESPE) · 2022
O engraçado é que muito poucos reconhecem isso. Convencem-se de que a morte chega de repente, que não houve desgaste preparatório, e nos apanha em plena flor da juventude, ou em plena frutificação da maturidade; se imaginam uma rosa que foi colhida em plena beleza desabrochada. Mas a rosa, se a não apanha o jardineiro, que será ela no dia seguinte, após o mormaço do sol e a friagem do sereno? A hora da colheita não interessa ― de qualquer modo, o destino dela era murchar, perder as pétalas, secar, sumir-se.
A gente, porém, não pode pensar muito nessas coisas. Tem que pensar em alegrias, sugestionar-se, sugestionar os outros. Vamos dar festas, vamos aguardar o ano novo com esperanças e risadas e beijos congratulatórios. Desejar uns aos outros saúde, riqueza e venturas. Fazer de conta que não se sabe; sim, como se a gente nem desconfiasse. Tudo que nos espera: dentro do corpo o que vai sangrar, doer, inflamar, envelhecer. As cólicas de fígado, as dores de cabeça, as azias, os reumatismos, as gripes com febre, quem sabe o tifo, o atropelamento. Tudo escondido, esperando. Sem falar nos que vão ficar tuberculosos, nas mulheres que vão fazer cesariana. Os que vão perder o emprego, os que se verão doidos com as dívidas, os que hão de esperar nas filas ― que seremos quase todos. E os que, não morrendo, hão de ver a morte lhes entrando de casa adentro, carregando o filho, pai, amor, amizade. As missas de sétimo dia, as cartas de rompimento, os bilhetes de despedida. E até guerra, quem sabe? Desgostos, desgostos de toda espécie. Qual de nós passa um dia, dois dias, sem um desgosto? Quanto mais um ano!
Acerca das ideias e de aspectos linguísticos do texto precedente, julgue o item que se segue.
No texto, a autora incentiva uma postura otimista durante a passagem de ano, apesar de manifestar uma visão pessimista quanto ao porvir.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Comentário: A afirmação de que a autora propõe uma postura otimista durante o Réveillon, mesmo apresentando uma visão negativa sobre o futuro, é, de fato, correta. Ao longo do texto, Rachel de Queiroz coloca em evidência a dualidade de sentimentos que permeia a passagem de ano. Ela menciona a importância de festejar, rir e desejar bem aos outros, sugerindo que as pessoas devem ignorar, em parte, os pesares da vida. Essa intenção de incentivar celebrações, com promessas de saúde e prosperidade, revela um desejo coletivo de manter a esperança viva, mesmo diante da inevitabilidade do sofrimento que vem com o tempo. Contudo, a autora também traça um retrato sombrio dos desafios que aguardam as pessoas no ano que se inicia, como doenças, perdas e desgostos. É neste contraste que reside a complexidade da mensagem: aceitar a dor e, ao mesmo tempo, buscar a alegria. Portanto, a leitura nos ensina a encontrar um equilíbrio entre otimismo e realismo, uma reflexão profunda que enriquece a experiência de passagem de ano. Assim, a ideia expressa no item está coerente com a proposta literária da autora, justificando seu gabarito como CERTO.
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