Questão FC115712
Texto CB2A1AAA Se os historiadores produzem o passado e é o passado que faz uma nação, os historiadores do patrimônio fazem política, inventando o patrimônio nacional, atribuindo v
Interpretação de Textos (Compreensão)
CEBRASPE (CESPE) · 2018
Se os historiadores produzem o passado e é o passado que faz uma nação, os historiadores do patrimônio fazem política, inventando o patrimônio nacional, atribuindo valor e significados a bens e práticas culturais que circunscrevem os limites da nação.
Sabemos bem que o trabalho do historiador, ao fabricar um patrimônio no seu próprio ofício da escrita da história, está integrado a um projeto de nacionalização, de construção do Estado e, portanto, de poder.
Certa produção historiográfica e sociológica, em debate pelo menos desde os anos 70 do século passado e já clássica na atualidade, trouxe novos ingredientes para a reflexão sobre essa ambiguidade do papel do historiador e do intelectual de um modo geral. Essa literatura aponta os numerosos constrangimentos a que estavam submetidos, na sua produção intelectual, em função de um processo de formação, enquadramento e disciplinarização que delineava um lugar de fala, limitado por regras de diversas naturezas. Dentre elas, podem ser destacadas as de financiamento de estudos, postos a julgamentos sobre suas finalidades e objetivos por comissões de alto nível, bem como as regras que regem a oferta de trabalho. O perfil e a política das instituições em que estão inseridos, entre outros aspectos, impõem a agenda dos estudos do momento.
Alguns desses autores, em confronto com interpretações totalizantes acerca dos fenômenos sociais, verificavam, também, que, diante de estratégias de dominação — identificadas em microescalas e em diferentes tipos e níveis de relações —, havia a possibilidade de pequenas subversões ou da adoção de sutis táticas de resistência; noutra vertente, pode-se falar nas brechas que se verificam em todo sistema e que arejam e alimentam esperanças de transformação.
Ainda que circunscritas a determinados limites, essas ações de resistência, aparentemente insignificantes, colocam em movimento as relações e podem alterar a realidade de uma ordem imposta ou dominante, em um jogo vivido cotidiana e mais ou menos silenciosamente.
É evidente, nessa perspectiva, que, diante do exercício de violência simbólica ao qual somos submetidos, na qualidade de sujeitos históricos, verificam-se nossas capacidades inventivas nos limites de possibilidades de ação de que dispomos. Essa estranha “margem de manobra”, ou, em melhores palavras, essa interseção entre um profundo pessimismo e a utopia de se construir um mundo melhor, é que mobiliza os homens para a ação.
Conforme o texto, a atividade do historiador, ao construir o patrimônio, pode ser enquadrada no conjunto das “ações de resistência, aparentemente insignificantes”.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Comentário: A assertiva de que a atividade do historiador, ao construir o patrimônio, se insere no âmbito das “ações de resistência, aparentemente insignificantes” está correta, pois, conforme o texto, essa construção do patrimônio não é um ato neutro, mas uma forma de intervir socialmente. O historiador, ao escolher o que narrar e como interpretar os eventos, exerce uma influência poderosa, podendo desafiar as narrativas dominantes. Essas ações, mesmo que sutis e muitas vezes imperceptíveis, têm o potencial de movimentar as relações sociais e questionar estratégias de dominação. Dessa maneira, o trabalho do historiador se torna uma via de resistência contra a imposição de certas verdades históricas, provocando reflexões e, assim, promovendo uma transformação, mesmo que limitada. É nesse contexto que se revela a importância dessas intervenções silenciosas, que, embora possam parecer irrelevantes à primeira vista, possuem a capacidade de alterar a ordem estabelecida e inspirar mudança. Portanto, a construção do patrimônio é um elemento valioso na luta contra a violência simbólica, e a resistência que dela emerge é um testemunho do poder criativo do historiador.
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