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Questão FC115768

Comunidade das pequenas salas de cinema, não muita gente, e a que houver tocada em cheio como o coração tocado por um dedo vibrante, tocada, a pequena assembleia humana, por um sop

Interpretação de Textos (Compreensão)

CEBRASPE (CESPE) · 2018

Comunidade das pequenas salas de cinema, não muita gente, e a que houver tocada em cheio como o coração tocado por um dedo vibrante, tocada, a pequena assembleia humana, por um sopro noturno, uma ação estelar. Não se vai lá em busca de catarse direta, mas de arrebatamento, cegueira, transe. Vão alguns em busca de beleza, dizem. É uma ciência de ritmo, ciclo, luz miraculosamente regulada, uma ciência de espessura e transparência da matéria? De todos os pontos da trama luminosa, ao fundo da assembleia sentadamente muda morrendo e ressuscitando segundo a respiração na noite das salas, a mão instruída nas coisas mostra, rodando quintuplamente esperta, a volta do mundo, a passagem de campo a campo, fogo, ar, terra, água, éter, verdade transmutada, forma. (...)

A escrita não substitui o cinema nem o imita, mas a técnica do cinema, enquanto ofício propiciatório, suscita modos esferográficos de fazer e celebrar. Olhos contempladores e pensadores, mão em mãos seriais, movimento, montagem da sensibilidade, música vista (ouçam também com os olhos!) (...) O arroubo é uma atenção votada às miúdas cumplicidades com o mundo, o mundo em frases, em linhas fosforescentes, em texto revelado, como se diz que se revela uma fotografia ou se revela um segredo. O poema, o cinema, são inspirados porque se fundam na minúcia e no rigor das técnicas da atenção ardente.

Alimentamo-nos de imagens emendadas, representações conjugadas simbolicamente, pontos fortes e luminosos, pensamentos bucais (...). A imagem é um ato pelo qual se transforma a realidade, é uma gramática profunda no sentido em que refere que o desejo é profundo, e profunda a morte, e a vida ressurrecta.

Herberto Helder Cinemas In: Relâmpago: Revista de Poesia n º 3, 1998, p 7-8 (com adaptações)

Com relação ao texto Cinemas, do poeta português Herberto Helder, e a aspectos a ele relacionados, julgue o item.

Depreende-se do emprego da primeira pessoa do plural no trecho “Alimentamo-nos” (l.26) que o autor inclui-se entre os espectadores de cinema.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Comentário: O uso da primeira pessoa do plural em “Alimentamo-nos” é um destaque crucial na interpretação do texto de Herberto Helder. Esta construção verbal é uma poderosa ferramenta que conecta o autor aos demais espectadores, insinuando que ele também participa dessa experiência coletiva no cinema. Ao afirmar que se alimentam de “imagens emendadas” e “representações conjugadas simbolicamente”, Helder não apenas descreve o que acontece nas salas de cinema, mas também se coloca como um ator nessa cena. Esta inclusão revela uma conexão íntima com o público, sugerindo que todos estão imersos em um mesmo processo de apreciação e reflexão sobre as imagens na tela. A escolha da primeira pessoa do plural torna a experiência cinematográfica algo partilhado; é um convite para que o leitor perceba que, ao assistir ao cinema, não está sozinho, mas dentro de uma assembleia vibrante de sentimentos e percepções. Portanto, essa escolha linguística reforça a ideia de que Helder se identifica com seu público, configurando o item como CERTO.

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