Questão FC116367
Eu, Marília, não fui nenhum vaqueiro, fui honrado pastor da tua aldeia; vestia finas lãs e tinha sempre a minha choça do preciso cheia. Tiraram-me o casal e o manso gado, nem tenho
Sintaxe
CEBRASPE (CESPE) · 2015
fui honrado pastor da tua aldeia;
vestia finas lãs e tinha sempre
a minha choça do preciso cheia.
Tiraram-me o casal e o manso gado,
nem tenho a que me encoste um só cajado.
Para ter que te dar, é que eu queria
de mor rebanho ainda ser o dono;
prezava o teu semblante, os teus cabelos
ainda muito mais que um grande trono.
Agora que te oferte já não vejo,
além de um puro amor, de um são desejo.
Se o rio levantado me causava,
levando a sementeira, prejuízo,
eu alegre ficava, apenas via
na tua breve boca um ar de riso.
Tudo agora perdi; nem tenho o gosto
de ver-te ao menos compassivo o rosto.
Thomaz Antonio Gonzaga. Marília de Dirceu.
Rio de Janeiro: Edouro, 1992. p. 74.
No fragmento do poema apresentado, predomina a ordem inversa dos termos das orações, como se verifica, por exemplo, no verso 6, em que a oração adjetiva (“a que me encoste”) precede o termo nominal que restringe (“cajado”).
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
Certo
Comentário do professor
A marcação CERTO decorre da presença de inversão sintática típica da métrica árcade, o hipérbato, em que elementos aparecem fora da ordem esperada para favorecer ritmo e ênfase.
No verso indicado, a oração "a que me encoste" é uma oração adjetiva restritiva introduzida por pronome relativo, e surge antes do seu antecedente "um só cajado". Ou seja, há ordem inversa ("a que me encoste um só cajado") em lugar da ordem direta mais habitual ("um só cajado a que me encoste").
Essa inversão destaca a perda do objeto e mantém a musicalidade do decassílabo, justificando o julgamento como CERTO.
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em