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Questão FC116505

Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas da fazenda;

Interpretação de Textos (Compreensão)

CEBRASPE (CESPE) · 2015

Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras; era a palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o açúcar gostoso; era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu azeite de fogo; ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras embambecidas pela saudade da terra, picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca.

Isto era o que Jerônimo sentia, mas o que o tonto não podia conceber. De todas as impressões daquele resto de domingo só lhe ficou no espírito o entorpecimento de uma desconhecida embriaguez, não de vinho, mas de mel chuchurreado no cálice de flores americanas, dessas muito alvas, cheirosas e úmidas, que ele na fazenda via debruçadas confidencialmente sobre os limosos pântanos sombrios, onde as oiticicas trescalam um aroma que entristece de saudade.

E deixava-se ficar, olhando. Outras raparigas dançaram, mas o português só via a mulata, mesmo quando, prostrada, fora cair nos braços do amigo. Piedade, a cabecear de sono, chamara-o várias vezes para se recolherem; ele respondeu com um resmungo e não deu pela retirada da mulher.

Passaram-se horas, e ele também não deu pelas horas que fugiram.

O círculo do pagode aumentou: vieram de lá defronte a Isaura e a Leonor, o João Romão e a Bertoleza, desembaraçados da sua faina, quiseram dar fé da patuscada um instante antes de caírem na cama; a família do Miranda pusera37 se à janela, divertindo-se com a gentalha da estalagem; reunira povo lá fora na rua; mas Jerônimo nada vira de tudo isso; nada vira senão uma coisa, que lhe persistia no espírito: a mulata ofegante a resvalar voluptuosamente nos braços do Firmo.

Só deu por si quando, já pela madrugada, se calaram de todo os instrumentos e cada um dos folgadores se recolheu a casa.

E viu a Rita levada para o quarto pelo seu homem, que a arrastava pela cintura.

Aluísio Azevedo. O cortiço. São Paulo: Ática, 1997.

Tendo como referência o fragmento acima, da obra O Cortiço, de Aluísio Azevedo, e considerando as estéticas romântica e naturalista, julgue o item a seguir.

Infere-se do texto a intenção clara de Rita Baiana de seduzir Jerônimo e, assim, separá-lo de sua esposa, Piedade.
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

Comentário: A afirmação está errada porque, no trecho analisado, não há evidências claras de que Rita Baiana tenha a intenção de seduzir Jerônimo para separá-lo de sua esposa, Piedade. Embora Jerônimo seja atraído por Rita, essa atração parece ser mais reflexo de sua própria embriaguez emocional e da saudade da terra do que uma ação deliberada de sedução por parte de Rita. O texto enfatiza a confusão de sentimentos de Jerônimo e a sua incapacidade de perceber o que acontece ao seu redor, o que sugere que sua fixação por Rita é mais um resultado de suas próprias impressões do que uma manobra consciente da mulata. Portanto, a ideia de que Rita tem a intenção de separá-los não se sustenta nas informações apresentadas.

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