Questão FC116521
Morte de uma baleia Em minutos espalhara-se a notícia: uma baleia no Leme e outra no Leblon haviam surgido na arrebentação de onde tinham tentado sair sem no entanto poder voltar.
Interpretação de Textos (Compreensão)
CEBRASPE (CESPE) · 2015
Morte de uma baleia
Em minutos espalhara-se a notícia: uma baleia no Leme e outra no Leblon haviam surgido na arrebentação de onde tinham tentado sair sem no entanto poder voltar. (...)
Não fui ver a baleia que estava a bem dizer à porta de minha casa a morrer. Morte, eu te odeio.
Enquanto isso as notícias misturadas com lendas corriam pela cidade do Leme. Uns diziam que a baleia do Leblon ainda não morrera mas que sua carne retalhada em vida era vendida por quilos pois carne de baleia era ótimo de se comer, e era barato, era isso que corria pela cidade do Leme. E eu pensei: maldito seja aquele que a comerá por curiosidade, só perdoarei quem tem fome, aquela fome antiga dos pobres.
Outros, no limiar do horror, contavam que também a baleia do Leme, embora ainda viva e arfante, tinha seus quilos cortados para serem vendidos. Como acreditar que não se espera nem a morte para um ser comer outro ser? Não quero acreditar que alguém desrespeite tanto a vida e a morte, nossa criação humana, e que coma vorazmente, só por ser uma iguaria, aquilo que ainda agoniza, só porque é mais barato, só porque a fome humana é grande, só porque na verdade somos tão ferozes como um animal feroz, só porque queremos comer daquela montanha de inocência que é uma baleia, assim como comemos a inocência cantante de um pássaro. Eu ia dizer agora com horror: a viver desse modo, prefiro a morte.
E exatamente não é verdade. Sou um feroz entre os ferozes seres humanos ― nós, os macacos de nós mesmos, nós, os macacos que idealizaram tornarem-se homens, e esta é também a nossa grandeza. Nunca atingiremos em nós o ser humano: a busca e o esforço serão permanentes.
E quem atinge o quase impossível estágio de Ser Humano, é justo que seja santificado. Porque desistir de nossa animalidade é um sacrifício.
Clarice Lispector. Clarice na cabeceira. Org. Teresa Montero. Rio de Janeiro: JPA Editores, 2012.
O sujeito narrativo afirma rejeitar a morte ao longo de todo o texto, radicalizando seu posicionamento à medida que se aprofunda na reflexão.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
Comentário: A afirmação está errada porque, embora o sujeito narrativo demonstre uma aversão à morte, especialmente em relação à morte da baleia e ao tratamento cruel que ela recebe, ele também reconhece a complexidade da condição humana e a própria animalidade do ser humano. Ao afirmar que prefere a morte a viver de maneira feroz e desrespeitosa com a vida, o narrador não rejeita a morte em si, mas critica a maneira como a vida é desvalorizada. Portanto, sua reflexão é mais ambígua, mostrando uma luta interna entre a animalidade e a busca pela humanidade, ao invés de uma simples rejeição à morte.
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