Questão FC116528
Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas da fazenda;
Tipologia e Gênero Textual
CEBRASPE (CESPE) · 2015
Isto era o que Jerônimo sentia, mas o que o tonto não podia conceber. De todas as impressões daquele resto de domingo só lhe ficou no espírito o entorpecimento de uma desconhecida embriaguez, não de vinho, mas de mel chuchurreado no cálice de flores americanas, dessas muito alvas, cheirosas e úmidas, que ele na fazenda via debruçadas confidencialmente sobre os limosos pântanos sombrios, onde as oiticicas trescalam um aroma que entristece de saudade.
E deixava-se ficar, olhando. Outras raparigas dançaram, mas o português só via a mulata, mesmo quando, prostrada, fora cair nos braços do amigo. Piedade, a cabecear de sono, chamara-o várias vezes para se recolherem; ele respondeu com um resmungo e não deu pela retirada da mulher.
Passaram-se horas, e ele também não deu pelas horas que fugiram.
O círculo do pagode aumentou: vieram de lá defronte a Isaura e a Leonor, o João Romão e a Bertoleza, desembaraçados da sua faina, quiseram dar fé da patuscada um instante antes de caírem na cama; a família do Miranda pusera37 se à janela, divertindo-se com a gentalha da estalagem; reunira povo lá fora na rua; mas Jerônimo nada vira de tudo isso; nada vira senão uma coisa, que lhe persistia no espírito: a mulata ofegante a resvalar voluptuosamente nos braços do Firmo.
Só deu por si quando, já pela madrugada, se calaram de todo os instrumentos e cada um dos folgadores se recolheu a casa.
E viu a Rita levada para o quarto pelo seu homem, que a arrastava pela cintura.
Nesse trecho do romance O Cortiço, observa-se a construção de um tempo narrativo predominantemente psicológico, o que é compatível com a relevância, na narrativa, do que se passa no íntimo da personagem Jerônimo.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
A afirmação é CERTO porque o trecho prioriza um tempo narrativo psicológico, centrado nas impressões sensoriais e nas emoções de Jerônimo. A repetição acumulativa de imagens ("ela era...") e as metáforas sinestésicas transformam o evento externo numa experiência interior prolongada, indicando que o relato privilegia o vivido pela consciência, não a cronologia objetiva.
Há focalização interna: o narrador apresenta o mundo através da percepção de Jerônimo, opondo-se à descrição impessoal. O caráter subjetivo aparece também no apagamento do tempo cronológico, pois "ele não deu pelas horas", o que evidencia a dilatação temporal psicológica.
Mesmo inserido no contexto naturalista, o episódio explora a interioridade e os impulsos humanos, tornando compatível a observação de que a narrativa valoriza o íntimo de Jerônimo.
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