Questão FC116596
Texto Naquele novo apartamento da rua Visconde de Pirajá pela primeira vez teria um escritório para trabalhar. Não era um cômodo muito grande, mas dava para armar ali a minha tenda
Semântica
CEBRASPE (CESPE) · 2016
Naquele novo apartamento da rua Visconde de Pirajá pela primeira vez teria um escritório para trabalhar. Não era um cômodo muito grande, mas dava para armar ali a minha tenda de reflexões e leitura: uma escrivaninha, um sofá e os livros. Na parede da esquerda ficaria a grande e sonhada estante onde caberiam todos os meus livros.
Tratei de encomendá-la a seu Joaquim, um marceneiro que tinha oficina na rua Garcia D’Ávila com Barão da Torre.
O apartamento não ficava tão perto da oficina. Era quase em frente ao prédio onde morava Mário Pedrosa, entre a Farme de Amoedo e a antiga Montenegro, hoje Vinicius de Moraes. Estava ali havia uma semana e nem decorara ainda o número do prédio. Tanto que, quando seu Joaquim, ao preencher a nota de encomenda, perguntou-me onde seria entregue a estante, tive um momento de hesitação. Mas foi só um momento. Pensei rápido: “Se o prédio do Mário é 228, o meu, que fica quase em frente, deve ser 227”. Mas lembrei-me de que, ao ir ali pela primeira vez, observara que, apesar de ficar em frente ao do Mário, havia uma diferença na numeração.
― Visconde de Pirajá, 127 ― respondi, e seu Joaquim desenhou o endereço na nota.
― Tudo bem, seu Ferreira. Dentro de um mês estará lá sua estante.
― Um mês, seu Joaquim! Tudo isso? Veja se reduz esse prazo.
― A estante é grande, dá muito trabalho... Digamos, três semanas.
Ferreira Gullar. A estante. In: A estranha vida banal. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989 (com adaptações).
No que se refere aos sentidos do texto, julgue o próximo item.
O verbo dever foi empregado no sentido de ser provável.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
A afirmativa é certa, porque o contexto revela dúvida, não obrigação. O narrador ainda não decorara o número do prédio, e raciocina por comparação com o de Mário Pedrosa.
O verbo dever aparece na locução verbal deve ser, que aqui funciona como marca de probabilidade ou conjectura, ou seja, indica que algo é suposto ou provável, não que haja uma obrigação ou necessidade.
Reescrevendo de modo equivalente, "Se o prédio do Mário é 228, o meu, que fica quase em frente, deve ser 227" = "é provável que seja 227", o que confirma o julgamento como correto.
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