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Questão FC129638

Imagine a leitora que está em 1813, na igreja do Carmo, ouvindo uma daquelas boas festas antigas, que eram todo o recreio público e toda a arte musical. Sabem o que é uma missa can

Semântica

CEBRASPE (CESPE) · 2014

Imagine a leitora que está em 1813, na igreja do Carmo, ouvindo uma daquelas boas festas antigas, que eram todo o recreio público e toda a arte musical. Sabem o que é uma missa cantada; podem imaginar o que seria uma missa cantada daqueles anos remotos. Não lhe chamo a atenção para os padres e os sacristães, nem para o sermão, nem para os olhos das moças cariocas, que já eram bonitos nesse tempo, nem para as mantilhas das senhoras graves, os calções, as cabeleiras, as sanefas, as luzes, os incensos, nada. Não falo sequer da orquestra, que é excelente; limito-me a mostrar-lhes uma cabeça branca, a cabeça desse velho que rege a orquestra, com alma e devoção.

Chama-se Romão Pires; terá sessenta anos, não menos, nasceu no Valongo, ou por esses lados. É bom músico e bom homem; todos os músicos gostam dele. Mestre Romão é o nome familiar; e dizer familiar e público era a mesma coisa em tal matéria e naquele tempo. “Quem rege a missa é mestre Romão” — equivalia a esta outra forma de anúncio, anos depois: “Entra em cena o ator João Caetano”; — ou então: “O ator Martinho cantará uma de suas melhores árias.” Era o tempero certo, o chamariz delicado e popular. Mestre Romão rege a festa! Quem não conhecia mestre Romão, com o seu ar circunspecto, olhos no chão, riso triste, e passo demorado? Tudo isso desaparecia à frente da orquestra; então a vida derramava-se por todo o corpo e todos os gestos do mestre; o olhar acendia-se, o riso iluminava-se: era outro.

Acabou a festa; é como se acabasse um clarão intenso, e deixasse o rosto apenas alumiado da luz ordinária. Ei-lo que desce do coro, apoiado na bengala; vai à sacristia beijar a mão aos padres e aceita um lugar à mesa do jantar.

Machado de Assis. Histórias sem data. Internet: <www.machadodeassis.org.br> (com adaptações).

Ainda em relação a aspectos linguísticos do texto de Machado de Assis, julgue o item seguinte.

O termo “sequer” poderia ser substituído por apenas sem prejuízo semântico ao período em que ocorre.
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

A substituição é incorreta porque altera o sentido do enunciado. O advérbio sequer tem valor de exclusão enfática, equivalente a "nem mesmo", e reforça que o autor não chega a mencionar a orquestra.


No original: "Não falo sequer da orquestra, ... limito-me a mostrar-lhes uma cabeça branca", ou seja, a orquestra está excluída do comentário, o foco é o velho que rege.


Se trocarmos por apenas, a frase ficaria "Não falo apenas da orquestra", que implica o oposto, que o autor não fala somente da orquestra, logo a orquestra é mencionada e há complementação. Há, portanto, prejuízo semântico com a substituição.

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