Questão FC129746
Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituív
Linguagem
CEBRASPE (CESPE) · 2014
Então eu grito.
Grito puro e sem pedir esmola. Sei que há moças que vendem o corpo, única posse real, em troca de um bom jantar em vez de um sanduíche de mortadela. Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém. Aliás — descubro eu agora — eu também não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria. Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas.
Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiram como não existiriam. Poucas se queixam e ao que eu saiba nenhuma reclama por não saber a quem. Esse quem será que existe?
Estou esquentando o corpo para iniciar, esfregando as mãos uma na outra para ter coragem. Agora me lembrei de que houve um tempo em que para me esquentar o espírito eu rezava: o movimento é espírito. A reza era um meio de mudamente e escondido de todos atingir-me a mim mesmo.
Quando rezava, conseguia um oco de alma — e esse oco é o tudo que posso eu jamais ter. Mais do que isso, nada. Mas o vazio tem o valor e a semelhança do pleno. Um meio de obter é não procurar, um meio de ter é o de não pedir e somente acreditar que o silêncio que eu creio em mim é resposta a meu — a meu mistério.
Tendo como referência o fragmento acima, da obra A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, julgue o item a seguir.
Uma das funções da linguagem empregada no texto é a função poética, uma vez que o narrador trata, entre as linhas, do próprio ofício de escrever.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
O item foi julgado ERRADO porque o fato de o narrador falar sobre escrever não torna automaticamente a função da linguagem a função poética. Quando o texto comenta a própria escrita, o que predomina é a função metalinguística, que tem como foco explicar ou refletir sobre a linguagem ou o ato de enunciar.
No fragmento há forte presença da 1ª pessoa e de tensões íntimas, o que evidencia a função emotiva, e frases como "um outro escreveria" são exemplos claros de comentário sobre o fazer literário, marca da metalinguística. A função poética privilegia a forma da mensagem, o jogo sonoro, figuras de linguagem e a foregrounding da linguagem em si, elementos não centrais aqui.
Portanto, classificar o trecho como função poética é inadequado.
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