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Questão FC130611

As traduções são muito mais complexas do que se imagina. Não me refiro a locuções, expressões idiomáticas, gírias, flexões verbais, declinações e coisas assim. Isso pode ser resolv

Interpretação de Textos (Compreensão)

CEBRASPE (CESPE) · 2014

As traduções são muito mais complexas do que se imagina. Não me refiro a locuções, expressões idiomáticas, gírias, flexões verbais, declinações e coisas assim. Isso pode ser resolvido de uma maneira ou de outra, se bem que, muitas vezes, à custa de intenso sofrimento por parte do tradutor. Refiro-me à impossibilidade de encontrar equivalências entre palavras aparentemente sinônimas, unívocas e univalentes. Por exemplo, um alemão que saiba português responderá sem hesitação que a palavra da língua portuguesa “amanhã” quer dizer “morgen”. Mas coitado do alemão que vá para o Brasil acreditando que, quando um brasileiro diz “amanhã”, está realmente querendo dizer “morgen”. Raramente está. “Amanhã” é uma palavra riquíssima e tenho certeza de que, se o Grande Duden fosse brasileiro, pelo menos um volume teria de ser dedicado a ela e a outras que partilham da mesma condição.

“Amanhã” significa, entre outras coisas, “nunca”, “talvez”, “vou pensar”, “vou desaparecer”, “procure outro”, “não quero”, “no próximo ano”, “assim que eu precisar”, “um dia destes”, “vamos mudar de assunto” etc. e, em casos excepcionalíssimos, “amanhã” mesmo. Qualquer estrangeiro que tenha vivido no Brasil sabe que são necessários vários anos de treinamento para distinguir qual o sentido pretendido pelo interlocutor brasileiro, quando ele responde, com a habitual cordialidade, que fará tal ou qual coisa amanhã. O caso dos alemães é, seguramente, o mais grave. Não disponho de estatísticas confiáveis, mas tenho certeza de que nove em cada dez alemães que procuram ajuda médica no Brasil o fazem por causa de “amanhãs” casuais que os levam, no mínimo, a um colapso nervoso, para grande espanto de seus amigos brasileiros.

João Ubaldo Ribeiro. A vida é um eterno amanhã. In: Um brasileiro em Berlim. 1993 (com adaptações).

Em relação às ideias e a aspectos linguísticos do texto acima, julgue o item subsequente.

Depreende-se da leitura do texto que, apesar de não se basear em estatísticas, o autor constrói sua argumentação com dados advindos do sistema de saúde brasileiro.
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

Comentário: A afirmativa está INCORRETA. O texto de João Ubaldo Ribeiro não se baseia em dados concretos ou estatísticas do sistema de saúde brasileiro para construir sua argumentação. Ao contrário, o autor faz uma observação bem-humorada sobre as dificuldades que os falantes de outras línguas, como os alemães, têm para interpretar a expressão "amanhã" no contexto brasileiro. Veja o trecho: “Não disponho de estatísticas confiáveis, mas tenho certeza de que nove em cada dez alemães que procuram ajuda médica no Brasil o fazem por causa de 'amanhãs' casuais...”. Essa afirmação é claramente uma hipérbole utilizada para ilustrar o mal-entendido causado pela polissemia da palavra "amanhã". Logo, o foco do autor não está na saúde dos alemães, mas sim nas complexidades da comunicação intercultural, tornando a argumentação humorística e não informativa sobre dados médicos.

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