Questão FC130620
A democracia já não se reduz a uma esperança, não é mais uma questão, não é apenas um direito, não é somente o apanágio de uma cidade ilustrada como Atenas, ou de um grande povo co
Interpretação de Textos (Compreensão)
CEBRASPE (CESPE) · 2014
Enquanto alguns discutem ainda se ela deve ser, já ela é. Como o crescer silencioso, mas incessante, do fluxo do oceano, sobe e espraia-se calada, mas continuamente.
Cada onda que se aproxima, e recua depois, estende os limites do poderoso elemento. Os espíritos que não veem muito deixam-se dormir, entretanto, recostados indolentemente à margem que as águas não tardarão em invadir, porque a enchente cresce linha a linha sem que a percebam, e, como a onda retrocede sempre, parece- lhes que, retrocedendo, perdeu todo o terreno vencido. Embora alguma onda mais impetuosa, como que os advertindo, jogue de longe sobre eles a espuma. Riem dela, porque a veem retrair-se logo após; persuadidos de que têm subjugado o oceano quando mandam pelos seus serviçais antepor-lhe a cautela de algum quebra-mar que dure pela vida de uma ou duas gerações. Cuidam ter desse modo segurado a sua casa e o futuro dos filhos. Mas o frágil anteparo, minado pela ação imperceptível das águas, esboroa-se um bom dia, malogrando-lhes os cálculos, quando não mais que isso.
A aristocracia teve a sua época e passou. A realeza teve a sua, e extinguiu-se também. Chegou a vez da democracia, e esta permanecerá para sempre. Por quê? Porque a aristocracia era a sujeição de todos a poucos, era o privilégio, a hereditariedade, que, na propriedade individual, é legítima, por ser consequência do trabalho, mas que, em política, é absurda, porque exclui do governo a vontade dos governados e submete o merecimento à incapacidade. A realeza também era o privilégio, ainda mais restrito, mais concentrado, personificado em um indivíduo, circunscrito a uma família. A democracia, essa é a negação das castas, das exclusões arbitrárias, e a consagração do direito: por isso, não morre.
Julgue o item, relativo às ideias e a aspectos linguísticos do texto acima.
Utilizando-se de metáforas, o autor constrói texto argumentativo em que a democracia é retratada como o oceano e suas ondas, e os que nela não creem, representados como os “espíritos que não veem muito”.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Comentário: A assertiva apresentada é CERTA. No texto de Rui Barbosa, a democracia é habilmente comparada a um oceano, e as ondas desse oceano simbolizam seu avanço contínuo e inevitável nas sociedades modernas. Ao caracterizar os "espíritos que não veem muito" como aqueles que estão à margem desse processo, Barbosa critica a apatia e a falta de percepção das pessoas que se opõem ou ignoram a força da democracia. Essas ondas representam os progressos e desafios que surgem, enquanto os que duvidam da democracia permanecem indolentemente inertes, como descrito na obra. Ao perceberem que a democracia se expande, duvidam de sua força, acreditando que conseguirão contê-la com algumas barreiras temporárias, assemelhadas a quebra-mares. No entanto, a metáfora revela que esses obstáculos são frágeis, minados pela ação crescente da democracia. Portanto, a argumentação de Rui Barbosa é clara e acessível: a mudança é inevitável e, assim como as ondas do mar, a democracia não pode ser detida. Ao finalizar, percebemos que a representação alegórica utilizada pelo autor ao longo do texto legitima a aceitação da assertiva como correta.
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