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Questão FC130632

No imaginário Livro das Espécies, que, teimosamente, repousa na estante da história do futebol, os brasileiros figuram como macacos no mínimo há mais de noventa anos. Em 1920, ao d

Interpretação de Textos (Compreensão)

CEBRASPE (CESPE) · 2014

No imaginário Livro das Espécies, que, teimosamente, repousa na estante da história do futebol, os brasileiros figuram como macacos no mínimo há mais de noventa anos. Em 1920, ao disputarem o campeonato sul-americano no Chile, os integrantes da equipe nacional foram chamados de “macaquitos” por um jornal argentino. O Brasil se indignou, porém pelos motivos errados: para o governo, conforme se lê no apêndice do livro de Mario Filho (1908-1966), O Negro no Futebol Brasileiro, “a questão passava pela imagem que a República precisava construir de si própria, deixando para trás os vestígios ligados à escravidão e à miscigenação, em um momento em que os discursos em torno da eugenia eram imperativos”. O escritor carioca Lima Barreto (1881-1922), mulato e pobre, para quem o futebol era “eminentemente um fator de dissensão”, destacou, com ironia, em uma famosa crônica, que “a nossa vingança é que os argentinos não distinguem, em nós, cores; todos nós, para eles, somos macaquitos”. No domingo 27, o tal Livro das Espécies ganhou, infelizmente, uma nova edição ― mas, pelo menos, revista e atualizada. E, com isso, uma versão 2014 do “todos somos macaquitos”.

Eram trinta minutos do segundo tempo do jogo Villareal versus Barcelona quando o brasileiro Daniel Alves, titular da equipe azul e grená, se encaminhou para bater um escanteio. Uma banana, então, foi atirada em sua direção. O lateral ― um baiano de trinta anos de idade, pardo, como se diz nos censos, e de olhos verdes ― reagiu de forma inesperada para o público e certamente também para o agressor: pegou a fruta, descascou-a e a pôs na boca.

Aquele era o oitavo caso de racismo nos gramados espanhóis somente na atual temporada. Teria sido alvo de tímidos protestos não fosse a reação irreverente do jogador brasileiro ― e a entrada em cena do craque Neymar, seu companheiro de Barcelona e da seleção brasileira. Na noite do próprio domingo, o atacante postou três imagens em sua conta no Instagram. Na última delas, aparecia empunhando uma banana ao lado de seu filho, Davi Lucca ― que, por sua vez, segurava uma providencial banana de pelúcia. Na legenda, o ex-santista escreveu a hashtag #somostodosmacacos em quatro idiomas: português, inglês, espanhol e Catalão. Até a última quinta-feira, essa postagem havia recebido quase 580.000 curtidas, enquanto uma legião de celebridades ― dos esportes, das artes, da política etc. ― repetia o gesto em apoio a Daniel Alves.

Rinaldo Gama. Como Daniel Alves derrotou o racismo. Internet: <www.veja@abril.com.br> (com adaptações).

Considerando as ideias e estruturas linguísticas do texto acima, julgue o item.

Os “motivos errados” a que se refere o autor do texto à linha 3 estão associados à atitude do governo brasileiro, na década de vinte do século passado, de negar a miscigenação do povo em favor da eugenia.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Comentário: O trecho em questão traz à tona a reflexão sobre a indignação do Brasil frente ao racismo, especificamente no contexto do futebol, e indica que essa indignação se baseava em “motivos errados”. A expressão refere-se à reação do governo que, ao invés de focar na gravidade do racismo e suas raízes históricas, direcionou sua preocupação para a imagem que desejava projetar internacionalmente, buscando dissociar-se de vestígios da escravidão e da miscigenação. Na década de 1920, em um cenário onde se discutia a eugenia, a posição do governo era de reforçar uma narrativa de superioridade cultural e racial, ignorando que a verdadeira indignação deveria ser a luta contra o racismo e os estigmas que este representa. Assim, a indignação não estava voltada para as ofensas feitas aos jogadores, mas sim para como essas ofensas poderiam prejudicar a imagem de uma nação que buscava se modernizar. Portanto, ao definir os motivos como errados, com a negação da miscigenação em prol de ideais eugenistas, o texto deixa claro que houve uma falha de foco na indignação, confirmando a assertiva da questão como CERTA.

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