Questão FC201001
A história de vida é uma daquelas noções do senso comum que entram de contrabando no universo acadêmico; primeiro, sem tambor nem trompete, pelos etnólogos; depois, mais recentemen
Princípios de Sociologia
FGV · 2025
A história de vida é uma daquelas noções do senso comum que entram de contrabando no universo acadêmico; primeiro, sem tambor nem trompete, pelos etnólogos; depois, mais recentemente, e não sem estrondo, entre os sociólogos. Falar de história de vida é pressupor pelo menos, e isto não é pouco, que a vida é uma história e uma vida é inseparavelmente o conjunto de acontecimentos de uma existência individual concebida como uma história e o relato desta história. O mundo social, que tende a identificar a normalidade com a identidade, entendida como constância de si mesmo de um ser responsável, ou seja, previsível ou, no mínimo, inteligível, à maneira de uma história bem construída, dispõe de todos os tipos de instituições de totalização e de unificação do eu.
Os acontecimentos biográficos são definidos como muitos posicionamentos e deslocamentos no espaço social, ou seja, mais precisamente, nos diferentes estados sucessivos da estrutura de distribuição das diferentes espécies de capital envolvidas em dado campo
Adaptado de: BOURDIEU, Pierre. L’illusion biographique. In: Actes de la recherche en sciences sociales. Vol. 62-63, 1986.
Com base na leitura do trecho, é correto afirmar que, segundo o autor, o sociólogo, ao estudar biografias, deve
- buscar a coerência entre os eventos pessoais, construindo uma ideia de trajetória de progresso linear contínuo.
- perceber que a trajetória possui um sentido intrínseco, moldado naturalmente pela vivência individual.
- focar na construção da sucessão cronológica dos acontecimentos da vida.
- selecionar os eventos mais significativos que representam a totalidade da vida.
- tornar a trajetória inteligível por meio da análise da estrutura social.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
Na alternativa correta, afirmamos que o sociólogo deve tornar a trajetória inteligível por meio da análise da estrutura social. Essa proposta está em consonância com a obra de Pierre Bourdieu, que aborda a vida como um conjunto de acontecimentos biográficos, que são influenciados pelo espaço social.
Bourdieu argumenta que a biografia de um indivíduo não pode ser compreendida isoladamente, mas sim como resultado de sua interação e mobilidade dentro das estruturas sociais. Os diferentes posicionamentos e deslocamentos que uma pessoa realiza são reflexos das dinâmicas sociais em que está inserida.
Assim, ao estudar a história de vida de um indivíduo, o sociólogo deve investigar como as diferentes espécies de capital (como econômico, cultural e social) influenciam suas escolhas e oportunidades. Em vez de buscar uma narrativa linear ou um sentido intrínseco na trajetória pessoal, o foco deve ser na análise das estruturas sociais que moldam a vida desse sujeito.
Dessa forma, Bourdieu nos convida a entender não apenas o que acontece na vida de um indivíduo, mas como essas experiências estão interligadas com as forças sociais mais amplas, proporcionando uma compreensão mais profunda e contextualizada das trajetórias individuais dentro do complexo tecido social.
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