Questão FC228429
A história de vida é uma daquelas noções do senso comum que entram de contrabando no universo acadêmico; primeiro, sem tambor nem trompete, pelos etnólogos; depois, mais recentemen
Princípios de Sociologia
FGV · 2025
A história de vida é uma daquelas noções do senso comum que entram de contrabando no universo acadêmico; primeiro, sem tambor nem trompete, pelos etnólogos; depois, mais recentemente, e não sem estrondo, entre os sociólogos. Falar de história de vida é pressupor pelo menos, e isto não é pouco, que a vida é uma história e uma vida é inseparavelmente o conjunto de acontecimentos de uma existência individual concebida como uma história e o relato desta história. O mundo social, que tende a identificar a normalidade com a identidade, entendida como constância de si mesmo de um ser responsável, ou seja, previsível ou, no mínimo, inteligível, à maneira de uma história bem construída, dispõe de todos os tipos de instituições de totalização e de unificação do eu.
Os acontecimentos biográficos são definidos como muitos posicionamentos e deslocamentos no espaço social, ou seja, mais precisamente, nos diferentes estados sucessivos da estrutura de distribuição das diferentes espécies de capital envolvidas em dado campo
Adaptado de: BOURDIEU, Pierre. L’illusion biographique. In: Actes de la recherche en sciences sociales. Vol. 62-63, 1986.
Com base na leitura do trecho, é correto afirmar que, segundo o autor, o sociólogo, ao estudar biografias, deve
- buscar a coerência entre os eventos pessoais, construindo uma ideia de trajetória de progresso linear contínuo.
- perceber que a trajetória possui um sentido intrínseco, moldado naturalmente pela vivência individual.
- focar na construção da sucessão cronológica dos acontecimentos da vida.
- selecionar os eventos mais significativos que representam a totalidade da vida.
- tornar a trajetória inteligível por meio da análise da estrutura social.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
Segundo Bourdieu, a biografia não é somente uma sequência íntima de acontecimentos, mas um conjunto de posicionamentos e deslocamentos no espaço social. Assim, o sociólogo deve tornar a trajetória inteligível investigando a estrutura que torna esses movimentos possíveis.
Isso implica analisar a distribuição e a luta por diferentes espécies de capitais (cultural, econômico, social, simbólico) e as relações específicas de cada campo, bem como o papel do habitus na produção de escolhas e percursos.
Em suma: para explicar uma vida, o pesquisador deve situar os eventos individuais nas condições e nas posições estruturais que os originam, transformando relatos em compreensão sociológica.
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