Questão FC249385
“Só nós antes de todos os outros levamos à África a ideia de direitos humanos e de igualdade racial. Só nós praticamos o ‘multirracialismo’, a expressão mais perfeita da fraternida
Historiografia e Teoria da História
VUNESP · 2023
“Só nós antes de todos os outros levamos à África a ideia de direitos humanos e de igualdade racial. Só nós praticamos o ‘multirracialismo’, a expressão mais perfeita da fraternidade entre os povos. Ninguém no mundo contesta a validade deste princípio, mas hesita-se um pouco em admitir que é uma invenção portuguesa, e reconhecê- -lo faria crescer nossa autoridade no mundo” (Franco Nogueira, ministro [português] dos Negócios Estrangeiros, 1967). Essa orgulhosa catilinária, proferida quando a guerrilha alastrava-se pela Guiné-Bissau, por Angola, por Moçambique, não é uma declaração improvisada. A ideia que ela transmite está bem arraigada na consciência histórica dos governantes portugueses; tem inclusive repercussão fora do mundo lusitano.
(Marc Ferro, História das colonizações)
Assinale a alternativa que apresenta um exemplo correto da defesa dessas ideias portuguesas fora do mundo lusitano, segundo Marc Ferro.
- O escritor Eduardo Prado, após a Revolução de 1930, apontou uma série de características positivas do colonialismo português, como a flexibilidade em permitir a miscigenação racial, ainda que não reconhecesse quaisquer predicados das sociedades indígenas que pudessem contribuir com o desenvolvimento social.
- O sociólogo Florestan Fernandes, nos anos 1960, reconhecia a superioridade do modelo colonial português sobre as outras experiências europeias, porque o colonizador luso compreendeu que a escravidão precisava ser organizada menos pela violência e mais por meio de negociações entre senhores e escravizados.
- O sociólogo Gilberto Freyre, desde os anos 1930, revalorizava o aporte dos negros para a cultura brasileira, concluindo que a mestiçagem de brancos com pretos havia sido a grande sorte do Brasil. Além disso, esse pensador ampliava o “milagre” brasileiro a todo mundo lusitano, como na Índia, no Timor e na África.
- O historiador Jacob Gorender, especialmente em obras publicadas nos anos 1950, entendia que a formação social brasileira era devedora da extrema capacidade da colonização portuguesa em absorver todas as qualidades das etnias presentes na América portuguesa ao longo de três séculos.
- O pensador Alberto Torres, no decorrer dos anos 1940 e 1950, ofereceu uma vasta obra analítica sobre o caráter nacional brasileiro e apontou para a importante prática colonizadora de Portugal, capaz de harmonizar todas as etnias, fenômeno presente nos espaços coloniais portugueses.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Gilberto Freyre, desde os anos 1930, reinterpretou a presença africana no Brasil como elemento central da cultura nacional, valorizando a contribuição dos negros e defendendo a mestiçagem como a “grande sorte” do país.
Essa leitura sustentou a ideia de uma harmonia racial — frequentemente chamada de “democracia racial” — e transformou-se em argumento para afirmar que o colonizador português teria praticado um multirracialismo mais benigno que outros impérios.
Freyre não se limitou ao Brasil: estendeu essa visão ao mundo lusitano (Índia, Timor, África), promovendo uma imagem positiva e justificadora da presença portuguesa nos territórios colonizados.
Marc Ferro aponta essa difusão como exemplo claro de como ideias pró‑coloniais portuguesas ganharam repercussão fora do espaço lusófono.
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