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Questão FC249390

[Mas] não basta constatar o embuste. É preciso também descobrir seus motivos. Mesmo que, a princípio, para melhor rastreá-lo. Enquanto subsistir uma dúvida sobre as suas origens, e

Historiografia e Teoria da História

VUNESP · 2022

[Mas] não basta constatar o embuste. É preciso também descobrir seus motivos. Mesmo que, a princípio, para melhor rastreá-lo. Enquanto subsistir uma dúvida sobre as suas origens, ele permanecerá em si mesmo algo rebelde à análise; por conseguinte, de apenas até semicomprovado. Acima de tudo, uma mentira enquanto tal é, a seu modo, um testemunho. Provar, sem mais, que o célebre diploma de Carlos Magno para a igreja de Aix-la-Chapelle não é autêntico é poupar-se de um erro; não é adquirir um conhecimento. Conseguiremos, em contrapartida, determinar que a falsificação foi composta pelos círculos de Frederico Barba-Ruiva? Que iria, por todos os motivos, servir aos grandes sonhos imperiais? Eis portanto a crítica levada a buscar, por traz da impostura, o impostor; ou seja, conforme à própria divisa da história, o homem.

 

(Marc Bloch, Apologia da história, ou, O ofício do historiador.

Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001, p. 98)

 

É correto afirmar que, para Marc Bloch,

  1. um documento, ainda que falso, não perde o seu valor histórico, porque compete ao historiador descobrir as relações de poder e interesse que produziram aquela versão sobre determinado fato histórico.
  2. o uso de um documento forjado como fonte do trabalho de pesquisa histórica traz enormes riscos e poucos proveitos para o resultado final e, assim, devem ser preteridos pelo historiador.
  3. estão corretas as concepções metódicas em relação à análise da veracidade ou da falsidade de um documento, e ainda defende que documento histórico forjado não seja objeto de exame por parte dos historiadores.
  4. a crítica ao documento, por parte do historiador, deve ter uma atenção maior ao escrito e oficial, porque este se constitue no melhor instrumento para se representar plenamente os homens do passado.
  5. a crítica documental não faz parte do trabalho do historiador porque a sua tarefa consiste em estabelecer como o passado das sociedades humanas verdadeiramente ocorreu.
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Gabarito

A

Comentário do professor

Para Marc Bloch, um documento falso não perde seu valor histórico. Mesmo sendo inautêntico quanto aos factos que pretende atestar, conserva-se como evidência do tempo e dos agentes que o produziram.

Isso porque a falsificação funciona como testemunho: revela motivações, interesses e estratégias de legitimação. Ao investigar quem forjou o texto e por que o fez, o historiador descobre os conteúdos políticos e simbólicos em jogo.

A tarefa metodológica, segundo Bloch, não é rejeitar sumariamente o documento, mas aplicar a crítica documental para rastrear sua origem e os vínculos de poder que o tornaram necessário. Assim, a falsificação torna‑se fonte para compreender a mentalidade e as ambições daqueles que escreveram a história.

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