Questão FC249755
Segundo sugere Oleg Inatiev, analisando as possíveis motivações materiais de sua inserção na trama de 1788-89, é a partir de sua vivência como tropeiro, de suas constantes viagens
Questões sem classificação de assunto (História)
VUNESP · 2023
Segundo sugere Oleg Inatiev, analisando as possíveis motivações materiais de sua inserção na trama de 1788-89, é a partir de sua vivência como tropeiro, de suas constantes viagens e contatos com os habitantes das diversas comarcas, que Joaquim José da Silva Xavier se dá conta das contradições e crueldade do sistema de exploração colonial no Brasil. Numa de suas viagens, quando chegava à região de Minas Novas, depara-se com a “triste” cena de um negro sendo açoitado por seu dono. Revoltado, procura intervir e irascível que era na defesa de suas proposições, acaba por entrar em luta corporal com o proprietário do escravo. São ambos os contendores presos até que, cerca de dois meses depois, o juiz estabelece o veredicto: culpado o tropeiro, com multa de dois contos por perturbar a paz do reino e “tentar defender um escravo, propriedade total e inalienável do dono que dispõe totalmente de sua vida e morte”.
(João Pinto Furtado, Imaginando a nação: o ensino de história da Inconfidência Mineira na perspectiva da crítica historiográfica.
Em: Lana Mara de Castro Siman e Thais França de Lima e Fonseca (orgs.), Inaugurando a
História e construindo a nação; discursos e imagens no ensino de História. Adaptado)
Para Furtado, essa análise tem equívocos.
Assinale a alternativa que apresenta um desses equívocos.
- Os inconfidentes tinham um projeto político-revolucionário de clara condenação do trabalho compulsório, já que este havia sido imposto pelo colonialismo português e impossibilitava qualquer forma de organização republicana em Minas Gerais.
- Ao final do século XVIII, em razão da acentuada decadência da mineração, a exploração do trabalho escravo tornou-se menos importante e, assim, os inconfidentes tinham consciência de que tal instituição deveria ser questionada.
- O projeto revolucionário dos mineiros previa que o tráfico negreiro seria combatido com vigor pelos britânicos e defendia que a capitania de Minas Gerais, libertada do jugo português, liderasse a transição para o trabalho livre e assalariado.
- O tema da escravidão, suas rotinas disciplinares e imaginário, bem como o correlato uso da violência, não podem ser vistos sob o signo de valores vigentes no século XX, quando a escravidão negra já foi definitivamente proscrita do mundo ocidental.
- O alferes Joaquim José da Silva Xavier manifestava, com recorrência, o quanto condenava a escravização de pessoas, entendendo que a luta pela liberdade valia não só para a capitania de Minas Gerais, mas também a todos os sujeitos escravizados.
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Gabarito
D
Comentário do professor
Anacronismo: classificar os fatos e práticas do século XVIII à luz de valores do século XX é um erro metodológico. Isso impõe julgamentos contemporâneos sobre realidades sociais, jurídicas e culturais distintas.
Para interpretar a cena descrita é preciso historicizar: analisar normas, mentalidades e instituições coloniais que tornavam a escravidão uma relação legitimada e a violência um recurso cotidiano e regulamentado.
Ver o comportamento de pessoas do passado apenas como “mais ou menos moral” segundo padrões modernos distorce motivações, poderes e limites da ação individual e coletiva naquele contexto.
Portanto, a crítica aponta que não se deve ler o período com categorias tardias; explicar a violência escravocrata exige compreensão das estruturas e discursos de sua época, sem naturalizá‑los.
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