Questão FC280134
“Para além de uma rejeição ou negação dos valores de civilização e progresso que se tentava materializar na cidade do Rio de Janeiro, a Revolta da Vacina, na sua dimensão popular,
História do Brasil
IDECAN · 2019
“Para além de uma rejeição ou negação dos valores de civilização e progresso que se tentava materializar na cidade do Rio de Janeiro, a Revolta da Vacina, na sua dimensão popular, trazia em seu bojo a defesa e a afirmação de uma outra lógica de interpretação do mundo.”
AQUINO e MITTELMAN, Tania. A revolta da vacina. Vacinando contra a varíola e contra o povo. Rio de Janeiro: Ed. Ciência Moderna, 2003.
Entre as crenças que geraram desconfiança e aversão à obrigatoriedade da vacinação imposta pelas autoridades cariocas e que resultaram na Revolta da Vacina, encontramos as tradições culturais das populações negras descendentes dos grupos bantus e iorubás, para quem
- a introdução da vacina no corpo representaria a inoculação da própria doença, o que era contrário aos preceitos da variolização.
- a vacina animal, extraída do pús vacínico de vitelos, poderia transmitir características dos animais para os serem humanos, ou seja, poderia animalizar as pessoas.
- a vacina obrigatória, realizada através do método de braço-abraço, poderia transmitir a sífilis, que seria passada pelos brancos às populações negras.
- as epidemias de varíola eram um castigo infligido por Omolu, sendo a doença uma espécie de purificação dos pecados. Assim, vacinar-se só causaria mais epidemias e mortes.
- o método de aplicação da vacina nos braços, pernas ou até nas nádegas feriam os estritos códigos morais femininos, posto que teriam que se despir para os vacinadores.
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Gabarito
D
Comentário do professor
A alternativa aponta a crença, presente em tradições afro-brasileiras de matriz bantu e iorubá, de que a varíola estava vinculada a Omolu, orixá associado à morte e à cura de epidemias.
Nessa cosmologia, a doença funciona como uma espécie de purificação ou processo sagrado conduzido pelo orixá; portanto, qualquer intervenção externa que rompesse esse ciclo — como a vacinação obrigatória — era interpretada como uma afronta ao ordenamento espiritual.
Vacinar-se, para esses grupos, poderia desagradar os sacerdotes e o próprio Omolu, trazendo represálias sobrenaturais: mais doenças e mortes. Essa lógica religiosa explica parte da desconfiança popular e ajuda a compreender por que a campanha sanitaria encontrou resistência entre esses segmentos.
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