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Questão FC280171

“No aluir das paredes, no ruir das pedras, no esfarelar do barro, havia um longo gemido. Era o gemido lamentoso do Passado, do Atraso, do Opróbrio. A cidade colonial, imunda, retró

História do Brasil

IDECAN · 2019

“No aluir das paredes, no ruir das pedras, no esfarelar do barro, havia um longo gemido. Era o gemido lamentoso do Passado, do Atraso, do Opróbrio. A cidade colonial, imunda, retrógrada, emperrada nas suas velhas tradições, estava soluçando no soluçar daqueles apodrecidos materiais que desabavam. Mas o hino claro das picaretas abafava esse protesto impotente. Com que alegria cantavam elas — as picaretas regeneradoras! E como as almas dos que ali estavam compreendiam bem o que elas diziam, no seu clamor incessante e rítmico, celebrando a vitória da higiene, do bom gosto e da arte!”

 

BILAC, Olavo. Crônica. Revista Kosmos, Rio de Janeiro, mar.1904.

 

“De uma hora pra outra, a antiga cidade desapareceu e outra surgiu como se fosse obtida por uma mutação de teatro. Havia mesmo na cousa muito de cenografia.”

 

BARRETO, Afonso Henriques de Lima. Os Bruzundangas. São Paulo: Brasiliense, 1956.

 

Observadores de sua época e partícipes do novo jornalismo que se levantava com toda a força no início do século XX, os cronistas Olavo Bilac e Lima Barreto comentavam a nova era de metamorfoseamento material e imaterial pela qual passava o Rio de Janeiro com posições diametralmente opostas. Quanto as perspectivas adotadas por estes autores, é correto afirmar que

  1. com tom ácido, desdenhoso para com os símbolos das mudanças, o escritor carioca Olavo Bilac contrapôs-se à modernidade importada vencedora da Belle Époque Tropical.
  2. Lima Barreto encarava as metamorfoses urbanas com desconfiança, uma vez que percebia a manutenção e o acirramento das desigualdades sociais que essa modernidade acarretava.
  3. o que realmente incomodava o literato Olavo Bilac era a aceleração das mudanças, revelando um turbilhão em meio ao qual os ideais perdiam os seus referenciais e sensos morais mais apurados.
  4. o romancista, poeta, cronista e publicitário Lima Barreto entendia as mudanças da Capital como símbolos de reabilitação moral e material.
  5. Olavo Bilac combateu com devoção a pesada herança colonial de uma sociedade escravocrata, refletida na privação dos direitos dos negros africanos e seus descendentes.
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Gabarito

B

Comentário do professor

Lima Barreto observa as reformas urbanas com clara desconfiança: a expressão “mutação de teatro” e o termo cenografia indicam que as transformações são superficiais, encenadas, não resolutivas.

Para ele, as obras servem mais para ostentar modernidade do que para enfrentar os problemas estruturais da cidade. Há uma crítica implícita ao higienismo que expulsa e invisibiliza pobres e negros, sem promover justiça social.

Assim, Barreto percebe que a chamada modernidade não reduz, mas aprofunda as desigualdades sociais: a cidade nova é cenário que mascara a manutenção do poder e da exclusão.

Portanto, sua postura é de denúncia: as metamorfoses urbanas são espetáculo que legitima exclusão, não transformação social real.

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