Questão FC337496
Ganhei várias vezes da morte, isto é, inúmeras vezes os papéis que a morte representou para mim não chegaram a ser convincentes ou não chegaram a fazer grande sucesso. Matei várias
Morfologia
FCC · 2023
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.
Encenação da morte
A vida nos quer, a morte nos quer. Somos o resultado da tensão ocasionada pelas duas forças que nos puxam. Esse equilíbrio não é estável. Amplo, diverso e elástico é o campo de força da vida, e vale a mesma coisa para o campo da morte. Se ficamos facilmente deprimidos ou exaltados é em razão das oscilações de intensidade desses dois campos magnéticos, sendo o tédio o relativo equilíbrio entre os dois.
Às vezes é mais intensa a pressão da vida, outras vezes é mais intensa a pressão da morte. Não se quer dizer com isso que a exaltação seja a morte e a depressão seja a vida. Há exaltações e exultações que se polarizam na morte, assim como há sistemas de depressão que gravitam em torno da vida. O estranho, do ponto de vista biológico, é que somos medularmente solitários com ambos os estados de imantação mais intensa, os da vida e os da morte. Não aproveitamos apenas a vida, mas usufruímos também as experiências da morte, desde que essas não nos matem.
Ganhei várias vezes da morte, isto é, inúmeras vezes os papéis que a morte representou para mim não chegaram a ser convincentes ou não chegaram a fazer grande sucesso. Matei várias mortes. (...) Mas outro dia dei dentro de mim com uma morte tão madura, tão forte, tão irrespondível, tão parecida comigo que fiquei no mais confuso dos sentimentos. Esta eu não posso matar, esta é a minha morte. O Vinícius de Moraes, que entende muito de morte, disse que nesse terreno há sempre margem de erro, e que talvez eu tenha ainda de andar um bocado mais antes de encontrar a minha morte. Pode ser. Não sei. Quem sabe?
(Adaptado de CAMPOS, Paulo Mendes. Os sabiás da crônica. Antologia. Org. Augusto Massi. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 246-248, passim)
Ao tratar da morte, o cronista atribui à morte um poder de imantação tal que acaba por identificar a morte como uma força que, paradoxalmente, exerce uma estranha atração até mesmo sobre os que temem a morte.
Evitam-se as viciosas repetições do período acima substituindo-se os elementos sublinhados, na ordem dada, por:
- atribui-lhe − identificá-la − a temem
- lhe atribui − identificar a ela − lhe temem
- atribui-lhe − a identificar − temem-lhe
- atribui nela − lhe identificar − temem-na
- a atribui − identificar-lhe − a temem
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Gabarito
A
Comentário do professor
Atribui-lhe: o verbo atribuir rege objeto indireto ("atribuir algo a alguém"). Substitui-se "à morte" pelo pronome oblíquo de terceira pessoa lhe. A forma usada é natural com sujeito explícito; a ênclise é habitual, mas a próclise também seria aceita.
Identificá-la: "identificar" é verbo transitivo direto; "a morte" é objeto direto, substituível pelo pronome a. Como o verbo aparece no infinitivo impessoal, admite-se a ênclise (identificá-la) ou a próclise, sendo a ênclise preferida por questão de eufonia.
A temem: o pronome relativo que atrai o pronome (próclise obrigatória). O verbo temer é transitivo direto, portanto usa-se o pronome átono a antes do verbo: "a temem", mantendo concordância com o plural do sujeito.
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