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Questão FC337544

Leia o texto “Liberdade e necessidade ao revés”, de Eduardo Giannetti. “Por meios honestos se você conseguir, mas por quaisquer meios faça dinheiro”, preconiza – prenhe de sarcasmo

Morfologia

FCC · 2023

Leia o texto “Liberdade e necessidade ao revés”, de Eduardo Giannetti.

 

“Por meios honestos se você conseguir, mas por quaisquer meios faça dinheiro”, preconiza – prenhe de sarcasmo – o verso de Horácio. Desespero, precisão ou cobiça, dentro ou fora da lei: o dinheiro nos incita a fazer o que de outro modo não faríamos. Suponha, entretanto, um súbito e imprevisto bafejo da fortuna – um prêmio lotérico, uma indenização milionária, uma inesperada herança. Quem continuaria a fazer o que faz para ganhar a vida caso não fosse mais necessário fazê-lo? Estamos acostumados a considerar o trabalho como algo a que nos sujeitamos, mais ou menos a contragosto, para obter uma renda – como um sacrifício ou necessidade imposta de fora; ao passo que o consumo é tomado como a esfera por excelência da livre escolha: o território sagrado para o exercício da nossa liberdade individual. A possibilidade de satisfazer, ainda que parcialmente, nossos desejos e fantasias de consumo se afigura como a merecida recompensa – ou suborno, diriam outros – capaz de atenuar a frustração e aliviar o aborrecimento de ocupações que de outro modo não teríamos e não nos dizem respeito.

 

Daí que, na feliz expressão do jovem Marx, “o trabalhador só se sente ele mesmo quando não está trabalhando; quando ele está trabalhando, ele não se sente ele mesmo”. – Mas, se o mundo do trabalho está vedado às minhas escolhas e modo de ser; onde poderei expressar a minha individualidade? Impedido de ser quem sou no trabalho – escritório, chão de fábrica, call center, guichê, balcão –, extravaso a minha identidade no consumo – shopping, butique, salão, restaurante, showroom. Fonte de elã vital, o ritual da compra energiza e a posse ilumina a alma do consumidor. A compra de bens externos molda a identidade e acena com a promessa de distinção: ser notado, ser ouvido, ser tratado com simpatia, respeito e admiração pelos demais. Não o que faço, mas o que possuo – e, sobretudo, o que sonho algum dia ter – diz ao mundo quem sou. Servo impessoal no ganho, livre e soberano no gasto.

 

(Adaptado de: GIANNETTI, Eduardo. Trópicos utópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016)

 

Estamos acostumados a considerar o trabalho como algo a que nos sujeitamos, mais ou menos a contragosto, para obter uma renda. (1o parágrafo)

 

Em relação ao trecho que a precede, a oração sublinhada expressa ideia de

  1. consequência.
  2. finalidade.
  3. causa.
  4. condição.
  5. proporção.
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Gabarito

B

Comentário do professor

"Para obter uma renda" é introduzido pela preposição para, que equivale a a fim de e estabelece o propósito da ação expressa no período.

Formalmente, trata‑se de uma oração reduzida de infinitivo ou de um termo equivalente que exerce a função de adjunto adverbial de finalidade.

Responde à pergunta "para quê?": indica o objetivo pelo qual nos sujeitamos ao trabalho — isto é, a obtenção de renda.

Portanto, no contexto, a sequência sublinhada exprime claramente a ideia de finalidade, justificando a escolha da alternativa correta.

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