Questão FC337577
Essa crônica é uma despedida. Resolvi, por decisão própria, parar de escrever em Cotidiano [caderno do jornal FSP]. Devo ter perdido o juízo. Minha decisão contrária um dos dois ma
Semântica
FCC · 2024
Essa crônica é uma despedida. Resolvi, por decisão própria, parar de escrever em Cotidiano [caderno do jornal FSP].
Devo ter perdido o juízo. Minha decisão contrária um dos dois maiores sonhos de cada escritor. Primeiro, o sonho de ser um best-seller. Confesso: sou vítima dessa vaidade. O outro sonho dos escritores é ter seus textos publicados num jornal importante. O que significa reconhecimento duplo: do jornal que os publica e dos leitores. Todo escritor tem uma pitada de narcisismo.
Fernando Pessoa tem um poema que diz assim: "tenho dó das estrelas luzindo há tanto tempo, tenho dó delas..." e Ele se pergunta se " não haverá um cansaço das coisas, de todas as coisas..." Respondo: sim. Há um cansaço. A velhice é o tempo do cansaço de todas as coisas. Estou velho. Estou cansado. Já escrevi muito. Mas, agora , meus 78 anos estão pesando. E, como acontece com as estrelas, há sempre a obrigação de brilhar. A obrigação : é isso o que pesa. Perco o sono atormentado por deveres, pensando no que tenho de escrever. Sinto - pode ser que não seja assim, mas é assim que eu sinto - que já disse tudo. Não tenho novidades a escrever. Mas tenho a obrigação de escrever quando minha vontade é não escrever.
O tempo dos jornais é o hoje, as presenças. Mas minha alma é movida pelas ausências: nos jornais, não há lugar para ressureições.
(Adaptado de: ALVES, Rubem. "Despedida". Disponível em: www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 01/02/2024)
O termo empregado com sentido figurado está sublinhado no seguinte trecho:
- A velhice é o tempo do cansaço de todas as coisas.
- nos jornais, não há lugar para ressureições.
- Devo ter perdido o juízo.
- Confesso: sou vítima dessa vaidade.
- como acontece com as estrelas, há sempre a obrigação de brilhar.
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Gabarito
B
Comentário do professor
Na frase "nos jornais, não há lugar para ressureições", a palavra ressurreições não é literal: seu sentido denotativo — retorno à vida após a morte — não se aplica ao contexto jornalístico.
Aqui ela aparece em conotação (sentido figurado), significando a ideia de reviver, reavivar ou recuperar temas, memórias e ausências que o jornalismo, centrado no presente, não comporta.
Em termos semânticos, trata‑se de uma metáfora que amplia o significado da palavra para expressar uma crítica: o autor lamenta que o espaço dos jornais impeça "renascimentos" de assuntos íntimos ou históricos, tornando a expressão carregada de valor afetivo e estilístico.
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