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Questão FC337635

Atenção: Leia o trecho inicial do conto "O escrivão Coimbra", de Machado de Assis, para responder a questão. Aparentemente há poucos espetáculos tão melancólicos como um ancião com

Sintaxe

FCC · 2024

Atenção: Leia o trecho inicial do conto "O escrivão Coimbra", de Machado de Assis, para responder a questão.

Aparentemente há poucos espetáculos tão melancólicos como um ancião comprando um bilhete de loteria. Bem considerado, é alegre; essa persistência em crer, quando tudo se ajusta ao descrer, mostra que a pessoa é ainda forte e moça. Que os dias passem e com eles os bilhetes brancos, pouco importa; o ancião estende os dedos para escolher o número que há de dar a sorte grande amanhã, - ou depois, - um dia, enfim, porque todas as coisas podem falhar neste mundo, menos a sorte grande a quem compra um bilhete com fé.

Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança. Uma coisa não vai sem outra. Não confundas a fé na Fortuna com a fé religiosa. Também tivera esta em anos verdes e maduros, chegando a fundar uma irmandade, a irmandade de S. Bernardo, que era o santo de seu nome: mas aos cinquenta, por efeito do tempo ou de leituras, achou-se incrédulo.

Não deixou logo a irmandade: a esposa pôde contê-lo no exercício do cargo de mesário e levava-o às festas do santo; ela, porém, morreu, e o viúvo rompeu de vez com o santo e o culto. Resignou o cargo da mesa e fez-se irmão remido para não tornar lá.

Não buscou arrastar outros nem obstruir o caminho da oração; ele é que já não rezava por si nem por ninguém. Com amigos, se eram do mesmo estado de alma, confessava o mal que sentia da religião. Com familiares, gostava de dizer pilhérias sobre devotas e padres.

Aos sessenta anos, já não cria em nada, fosse do céu ou da terra, exceto a loteria. A loteria sim, tinha toda a sua fé e esperança. Poucos bilhetes comprava a princípio, mas a idade e depois a solidão vieram apurando aquele costume e o levaram a não deixar passar loteria sem bilhete.

Nos primeiros tempos, não vindo a sorte grande, prometia não comprar mais bilhetes, e durante algumas loterias cumpria a promessa. Mas já aparecia alguém que o convidava a ficar com um bom número, comprava o número e esperava. Assim veio andando pelo tempo fora até chegar aquele em que loterias rimaram com dias, e passou a comprar seis bilhetes por semana; repousava aos domingos.

(Adaptado de: ASSIS. Machado de. Contos: uma antologia. volume II. São Paulo: Companhia das Letras. 1998)

 

não vindo a sorte grande, prometia não comprar mais bilhetes.

Em relação ao trecho que o sucede, a oração sublinhada expressa ideia de:

  1. concessão.
  2. causa.
  3. consequência.
  4. condição.
  5. oposição.
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Gabarito

B

Comentário do professor

A oração não vindo a sorte grande é uma oração reduzida de gerúndio com valor causal.

Isso significa que ela apresenta a razão pela qual se dá o fato expresso na oração principal: prometia não comprar mais bilhetes. Em outras palavras, a falta da sorte grande é a causa que motiva a promessa de deixar de comprar bilhetes.

Pode-se desenvolver a reduzida sem alterar o sentido: "visto que/como/porque não vinha a sorte grande, prometia não comprar mais bilhetes". Essa expansão deixa explícito o conectivo causal subentendido pelo gerúndio.

Portanto, o gerúndio aqui não indica tempo, condição ou contraste, mas o motivo (causa) da ação principal.

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