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Questão FC337673

− E… se não conquistarmos?

Pontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc)

FCC · 2023

Para responder a questão, leia a crônica O importuno, de Carlos Drummond de Andrade, publicada originalmente em 13/07/1966.

 

− Que negócio é esse? Ninguém me atende?

 

A muito custo, atenderam; isto é, confessaram que não podiam atender, por causa do jogo com a Bulgária.

 

− Mas que tenho eu com o jogo com a Bulgária, façam-me o favor? E os senhores por acaso foram escalados para jogar?

 

O chefe da seção aproximou-se, apaziguador:

 

− Desculpe, cavalheiro. Queira voltar na quinta-feira, 14. Quinta-feira não haverá jogo, estaremos mais tranquilos.

 

− Mas prometeram que meu papel ficaria pronto hoje sem falta.

 

− Foi um lapso do funcionário que lhe prometeu tal coisa. Ele não se lembrou da Bulgária. O Brasil lutando com a Bulgária, o senhor quer que o nosso pessoal tenha cabeça fria para informar papéis?

 

− Perdão, o jogo vai ser logo mais, às quinze horas. É meio-dia, e já estão torcendo?

 

− Ah, meu caro senhor, não critique nossos bravos companheiros, que fizeram o sacrifício de vir à repartição trabalhar quando podiam ficar em casa ou na rua, participando da emoção do povo…

 

− Se vieram trabalhar, por que não trabalham?

 

− Porque não podem, ouviu? Porque não podem. O senhor está ficando impertinente. Aliás, disse logo de saída que não tinha nada com o jogo com a Bulgária! O Brasil em guerra − porque é uma verdadeira guerra, como revelam os jornais − nos campos da Europa, e o senhor, indiferente, alienado, perguntando por um vago papel, uma coisinha individual, insignificante, em face dos interesses da pátria!

 

− Muito bem! Muito bem! − funcionários batiam palmas.

 

− Mas, perdão, eu… eu…

 

− Já sei que vai se desculpar. O momento não é para dissensões. O momento é de união nacional, cérebros e corações uníssonos. Vamos, cavalheiro, não perturbe a preparação espiritual dos meus colegas, que estão analisando a Seleção Búlgara e descobrindo meios de frustrar a marcação de Pelé. O senhor acha bem o 4-2-4 ou prefere o 4-3-3?

 

− Bem, eu… eu…

 

− Compreendo que não queira opinar. É muita responsabilidade. Eu aliás não forço opinião de ninguém. Esta algazarra que o senhor está vendo resulta da ampla liberdade de opinião com que se discute a formação do selecionado. Todos querem ajudar, por isso cada um tem sua ideia própria, que não se ajusta com a ideia do outro, mas o resultado é admirável. A unidade pela diversidade. Na hora da batalha, formamos uma frente única.

 

− Está certo, mas será que, voltando na quinta-feira, eu encontro o meu papel pronto mesmo?

 

− Ah, o senhor é terrível, nem numa hora dessas esquece o seu papelzinho! Eu disse quinta-feira? Sim, certamente, pois é dia de folga no campeonato. Mas espere aí, com quatro jogos na quarta-feira, e o gasto de energia que isso determina, como é que eu posso garantir o seu papel para quinta-feira? Quer saber de uma coisa? Seja razoável, meu amigo, procure colaborar. Procure ser bom brasileiro, volte em agosto, na segunda quinzena de agosto é melhor, depois de comemorarmos a conquista do Tri.

 

− E… se não conquistarmos?

 

− Não diga uma besteira dessas! Sai, azar! Vá-se embora, antes que eu perca a cabeça e…

 

Vozes indignadas:

 

− Fora! Fora!

 

O servente sobe na cadeira e comanda o coro:

 

− Bra-sil! Bra-sil! Bra-sil!

 

Estava salva a honra da torcida, e o importuno retirou-se precipitadamente.

 

(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. Quando é dia de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 2014)

 

Verifica-se o emprego de vírgula(s) para isolar um vocativo em:

  1. Ah, o senhor é terrível, nem numa hora dessas esquece o seu papelzinho! (18º parágrafo)
  2. Perdão, o jogo vai ser logo mais, às quinze horas. (8º parágrafo)
  3. Mas, perdão, eu… eu… (13º parágrafo)
  4. Na hora da batalha, formamos uma frente única. (16º parágrafo)
  5. Seja razoável, meu amigo, procure colaborar. (18º parágrafo)
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

Seja razoável, meu amigo, procure colaborar.

A expressão meu amigo funciona como vocativo — termo de chamamento dirigido ao interlocutor — e não integra a estrutura sintática das orações.

Por isso, é isolada por vírgulas: a primeira separa o vocativo da oração anterior (Seja razoável) e a segunda, da oração seguinte (procure colaborar). Essa pontuação evidencia que o enunciador se dirige diretamente ao ouvinte, sem alterar sujeito ou predicado das orações.

Em suma, a presença das duas vírgulas obedece à regra: a vírgula deve isolar o vocativo, especialmente quando ele aparece intercalado entre duas orações (aqui, duas formas do imperativo).

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