Questão FC337775
Considere o texto para responder a questão seguinte. Todas as sociedades definem implicitamente uma legitimidade da dor que se antecipa a circunstâncias sociais, culturais ou físic
Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
FCC · 2025
Considere o texto para responder a questão seguinte.
Todas as sociedades definem implicitamente uma legitimidade da dor que se antecipa a circunstâncias sociais, culturais ou físicas tidas como difíceis. Uma experiência acumulada do grupo leva seus membros a uma expectativa do sofrimento habitual imputável a esses fatos.
A intervenção cirúrgica ou dentária, as sequelas de ferimento etc. são precedidas pelo comentário experiente dos que já passaram pela mesma situação e se apressam em dar sua impressão ou seu conselho. O médico pode sugerir a intensidade da dor pela qual o paciente passará. Cada experiência, cada doença, cada lesão é associada a uma margem difusa de sofrimento. A sociedade indica simbolicamente os limites do licito e, fazendo isso, esforça-se por dissuadir dos possíveis excessos. A expressão individual da dor penetra no cerne de formas ritualizadas, alimentando a expectativa de suas testemunhas.
Quando um sofrimento exibido parece desproporcional em relação à causa e ultrapassa o limite tradicional, desconfia-se de complacência ou de fingimento. A reputação do ator está então em jogo. Nos casos em que é obrigatório aguentar o sofrimento com firmeza, o homem oprimido pela dor e que não corresponde à expectativa dos outros através de sua propensão à queixa e às lágrimas, expõe-se à reprovação muda ou à exortação para que se comporte melhor. Essa discrepância em relação à discrição habitual provoca atitudes opostas àquelas desejadas pelo doente: a compaixão dá lugar ao constrangimento ou à incompreensão.
Inversamente, quando a ritualização da dor pede a dramatização, compreende-se mal quem interioriza seu sofrimento e não diz nada a ninguém. Se a queixa tem valor de linguagem que confirma aos próximos o beneficio de sua presença à cabeceira do doente, sua discrição parece negar a compaixão demonstrada em seu favor. Impenetrável apesar da dor que se supõe estar sentindo, o doente parece afirmar a insignificância daqueles que se apinham ao seu lado. Sua aparente capacidade para assumir sozinho e em silêncio sua provação frustra a família, que não espera senão a queixa para prodigalizar consolo e apoio.
A dor tem ritos que não são transgredidos sem o risco de indispor ou de ofender as pessoas de boa vontade. Mesmo no horror do que está sentindo, o homem sofredor segue o caminho que as tradições lhe traçam.
(Adaptado de: LE BRETON, David. Antropologia da Dor. São Paulo: Fap-Unifesp, 2013, p. 110-111)
... alimentando a expectativa de suas testemunhas.
... à expectativa dos outros através de sua propensão à queixa e às lágrimas ...
Impenetrável apesar da dor que se supõe ...
Os termos sublinhados acima referem-se no contexto, respectivamente, a:
- formas ritualizadas - dor - doente.
- expressão individual da dor - homem - doente.
- formas ritualizadas - dor - queixa.
- formas ritualizadas - homem - queixa.
- expressão individual da dor - dor - queixa
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Gabarito
B
Comentário do professor
Letra B: expressão individual da dor – homem – doente.
O trecho “A expressão individual da dor penetra no cerne de formas ritualizadas, alimentando a expectativa de suas testemunhas” indica que são as testemunhas da própria expressão da dor, não das formas; portanto o referente é expressão individual da dor.
Em “o homem oprimido pela dor e que não corresponde à expectativa dos outros através de sua propensão à queixa…”, o possessivo sua retoma o substantivo mais próximo e lógico: o homem, isto é, a propensão é dele.
Finalmente, “Impenetrável apesar da dor… o doente parece afirmar…” mostra que o adjetivo qualifica diretamente o doente, descrevendo sua atitude frente à dor.
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